- Duvido.
A forma mais eficiente de persuasão é o "duvido". Ele fere a honra. Ele desafia. Ele manda e desmanda. Quem estava duvidando era eu. Nós estávamos na praia, eu e meus amigos (cujos nomes vou manter em segredo para fazer com que a história pareça mais importante). A época fica também em dúvida - digo apenas que foi algum dia na minha infância. Devo ressaltar que a infância para mim vai do nascimento aos 17 anos, sem meio-termo. Quem tem meio-termo não sabe o que é ser feliz. Estávamos todos na praia, e havíamos encontrado um peixe morto na costa. Mas se fosse um peixe morto qualquer, nós o teríamos deixado de lado. Acontece que ele era enorme e estava inteirinho. Era como se ele estivesse vivo aquele tempo todo, só esperando a gente olhar. A gente olhou e BAM!, ele morreu. Ali, na hora. Era essa a impressão que ele passava. Ninguém ali entendia de peixe, então classificamos a espécie pelo nome de "Baru". Tudo na época a gente chamava de "baru", então foi a escolha natural.
Fulano (eu disse que manteria os nomes em segredo) pegou o baru e saiu andando. Fomos junto. Mais ali na frente havia um pescador.
- Como é que se chama esse peixe? - perguntou alguém ao pescador. Ele disse qual era a espécie. Não me lembro do nome que ele falou, só me lembro da nossa reação. - Mentira. É Baru.
De vez em quando esse pescador aparece ali na praia. Sempre de capa de chuva, não importa o tempo. Eu sempre rezo para ele não me reconhecer.
Mas voltando à história. Nós estávamos ali, andando de um lado para o outro com aquele peixe idiota, quando eu tive uma idéia. Eu sugeri que todos se imaginassem dentro de um ônibus.
- Imagina, você ali sentando no banco da janela. E de repente, cai um peixe no seu colo. Um baru enorme! Qual seria a sua reação? - eu dizia. Essa era a minha maneira de dizer "quem tem coragem de jogar o peixe no ônibus, hein?".
- Eu tenho coragem - dise o Fulano.
- Duvido - instiguei.
E ele ficou lá, no calçadão, baru na mão. Bem na frente da faixa de pedestres. E nós, que nunca fomos bobos, na areia. Meros espectadores da merda que estava por vir. A cada ônibus que aparecia no horizonte, nós dávamos risinhos de expectativa. Mas ele não jogava. Ficava lá, olhando ansiosamente da rua para nós. E nós gesticulando, "joga, vai!".
Jogou. Mas ê mira ruim. Nem passou perto. O ônibus seguiu seguiu caminho, e o baru acertou o carro que vinha atrás. Da areia não dava para ver direito como foi a pancada. Só vimos que o peixe bateu, caiu e ficou ali, estirado no asfalto. E o carro continuou andando, como se nada tivesse acontecido. Passa carro, passa carro, fecha o sinal. Fulano atravessou a rua calmamente, pegou o baru e voltou para esperar um novo ônibus.
Nós acenamos o máximo que podíamos. "Fulano, o carro parou!", tentávamos dizer. "O motorista está saltando!", queríamos gritar. "Olha para trás!". Mas ele não viu. O sujeito saiu do carro, deu uma olhada no pára-brisa, fez cara de mau e veio andando. Não dava nem tempo de mandar nosso amigo correr, então nós recuamos. Fomos descendo pela areia até a água e observamos dali. Era bem mais longe, mas dava para enxergar um pouco. Muito pouco. Tudo o que víamos era que o espaço ali perto do vendedor de coco estava cada vez mais lotado. Curioso é fogo. Depois da primeira meia-dúzia, não há um que não pare para ver o que está acontecendo. Nosso amigo estava no meio daquele mar de gente, e nós ali no mar de água. De vez em quando um de nós subia um pouco na areia, se escondia atrás de uma lixeira e voltava com informações quentes. Geralmente era "o cara vai bater no Fulano!". Demorou alguns minutos até que pudéssemos saber a verdade completa. A multidão foi se espalhando, o carro seguiu pela avenida, e lá vinha Fulano descendo pela praia.
- E aí, cara, o que aconteceu? - perguntávamos, cada um à sua maneira, de modo que não dava para entender direito o que estávamos falando, mas era óbvio o que queríamos saber. - Ele bateu em você? O carro quebrou? Seu pai vai pagar? - é sempre o pai que paga, pobres pais.
- O cara veio do nada, puto da vida, dizendo que eu quebrei o pára-brisa dele. Que ele podia ter morrido.
"Mas eu não vi nenhum caco de vidro", "baru não mata ninguém", "era para acertar o ônibus!"
- Eu achei que ele fosse me bater. O cara do coco ficou falando "foi esse aí, ele e uns outros moleques que estavam com ele". Eu pedi desculpas, falei que foi sem querer. Ele perguntou se eu podia dar uma indenização, e logo depois perguntou onde estava o meu pai. Aí eu menti. Disse que não moro aqui, que estou na casa de um primo, que também mora meio longe. Que a gente pega duas conduções para vir da casa dele até aqui. O cara do coco ficou falando que era mentira, o desgraçado. E por que é que vocês não me avisaram?
- Nós tentamos, nós tentamos!
- Mas então, o cara do carro falou que queria falar com o meu tio, que isso não ia ficar assim não. Aí eu falei "por favor, moço, não faz isso não", eu fiquei desesperado, eu tava achando que ele fosse me bater. Eu comecei a chorar, e...
- Espera aí. Você chorou?!
Isso é que é amizade de verdade. Quem não tem amigos assim não sabe o que é ser feliz.

5 comentários:
1 de março de 2008 22:51
Bah...que amigo que tu é hein!? Ò__Ó
2 de março de 2008 04:10
quem nunca aprontou uma pra um amigo q atire a primeira pedra!
aushuahsuhaushas
2 de março de 2008 21:47
2 de março de 2008 21:48
Nossa, tinha de ser muito besta hein. É claro que o cara voltaria, é claro... Que amigo mais idiota.
4 de março de 2008 00:27
Gostei dos seus textos. :) Adicionarei o seu blog aos meus favoritos.
Abraço!
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