Isto aconteceu no mês passado. Eu pegara o ônibus no terminal para ir para casa, o que é raro (costumo saltar antes do terminal e ir a pé - uma caminhadinha faz bem à saúde), e pude me sentar, o que é raro, no banco lá do fundo. Peguei um livro na mochila e comecei a ler, "o que mais faria com um livro?", pergunta você, "muitas coisas", respondo eu, mas é brincadeira. Eu só leio mesmo.
Lia meu livro quando sentou-se um cidadão ao meu lado. Ele conversava e ria alto com um terceiro, que estava em pé. Mas isso acontece sempre nos ônibus. Não era capaz de atrapalhar uma boa leitura, não comigo. Conversa vai, conversa vem, ao meus ouvidos não chegava exatamente uma conversa, apenas as palavras "Renato, há pessoas conversando ao seu redor" no ritmo animado do papo ao lado, quando de repente o companheiro sentado ao meu lado começou a olhar para a capa do meu livro. Mas isso acontece sempre nos ônibus. Não seria capaz de atrapalhar uma boa leitura, não comigo. Não seria se ele não estivesse lendo em voz alta. Não sei se você leitor já encontrou pela frente alguma dessas compilações de contos ou crônicas de diversos autores por aí. Títulos como "As Cem Melhores Crônicas Brasileiras" ou "Os Cem Melhores Contos de Mistério", ou ainda "Os Cem Melhores Contos Eróticos", que eu dei graças a Deus por não estar lendo naquele momento. Esses livros trazem na capa, além do título, os nomes dos autores ali apresentados. Todos. E eu estava lendo um desses livros. Portanto, o meu vizinho de assento não leu ali apenas "As Cem Melhores Crônicas Brasileiras", mas também "Luis Fernando Verissimo", "Mario Prata", "Chico Buarque" e outros nomes invejados, o que atrapalha a concentração de qualquer um. Além disso, eu estava coincidentemente lendo uma crônica que falava de sexo, o que me fez semi-fechar a capa com um frio na espinha e terminar de ler logo (porque crônica não se deixa para depois) para evitar que aquilo também fosse lido em alto, claro e ainda por cima lento som no meio daquela condução que não estava lotada.
Fechei o livro, guardei-o na mochila (o amigo ainda insistia em decifrar todo o conteúdo da capa) e olhei pela janela. O ônibus havia parado em um ponto, o ponto que fica logo em frente ao edifício onde minha família comprara um apartamento há pouco tempo. Estava na etapa final de construção e eu mal podia esperar para me mudar. Fiquei ali olhando para minha futura morada quando ouvi a voz do leitor-de-capas:
- Caramba, da última vez que vim aqui esse prédio ainda estava baixinho, baixinho! Olha só, tá quase pronto!
- É, tá ficando bonito, hein?
Ele havia estragado minha leitura. Além disso, referiam-se ao "meu" prédio. E falavam alto. Eu estava no meu direito ao escutar.
- Eu fiz um pedido para vir morar aí, sabe.
Essa frase obviamente despertou meu interesse. "Pedido"? Para quem? Estrela cadente? Papai Noel, talvez? A fada do dente, bem sei, só dá dinheiro. Eliminei a fada do dente. Falando sério agora: apartamento a duas quadras do mar, que eu saiba, não se pede - se compra. Pensando bem, talvez a fada do dente fizesse sentido. Ou senão o pai dele era um sujeito rico com mais de vinte filhos. Vivia viajando, e era cheio de formalidades. A prole pediria presentes por correio, e havia sempre fila. Apartamento e carro tinha que esperar. Já estava cheio de pedidos.
- Ah, pediu, é? - respondeu o outro como se fosse a coisa mais normal do mundo. Eu não tirava os olhos da janela, não sabia que tipo de cara engraçada faria se olhasse para eles.
- Sim. É aquele programa do governo. Foi o governador - admito, não me lembro se ele disse prefeito, governador ou presidente aqui. Optei pelo intermediário - que mandou construir o prédio. Os apartamentos vão ser todos doados para a população carente. Vão tirar um pouco o povo da favela, trazer pra cidade.
Eu fitava o nada lá fora, fazendo inconscientemente uma cara de pôquer. O ônibus voltava a andar.
- Ah, é desse esquema então - assentia o outro, sentando-se ao meu lado. Eu estava no meio dos dois agora, adeus janela.
- É, foi uma caridade da associação de moradores aqui do bairro - afirmou meu pseudo-candidato-a-futuro-vizinho-leitor-de-capas, cada vez mais esperto e cada vez com mais hífens no título por mim concedido.
Eu olhava para a frente como quem deixa em dúvida seus adversários com um blefe que parece ser óbvio demais, enquanto eles continuavam aquela conversa que eu me segurei para não interromper com uma série de correções. Governo federal, estadual, municipal, associação de moradores ou seja lá o que for - alguém me passara a perna.
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Eu estive ausente por um tempo, mas continuo amando escrever aqui. Acontece que, como se pode deduzir da história acima, estive de mudança. E a internet chegou aqui, olha só, ontem. Pelo menos tive um bom tempo para vasculhar minhas memórias e pensar em besteiras, o que é material de caca. Ou bênção, em outra (curta) época. Voltaremos agora à programação normal, obrigado.
Grande abraço!

3 comentários:
14 de fevereiro de 2008 00:55
Só falto dizer uma coisa: o mala virou seu vizinho ou não? xD
14 de fevereiro de 2008 14:48
Além de cotista, vai morar as custas do governo!!
rsrs
Zoa zoa =*
15 de fevereiro de 2008 12:28
e ele insiste em dizer que nao usa boné do PT...pare de nos enganar, Renato O.o
zoera xD
Falando serio agora: seus texto estao cada vez melhores¹²¹³¹³ *o*
Parabens ^^
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