Exame de sangue

Hoje fui fazer um exame de sangue. Um "exame duplo", como eu apelidei. O médico quis checar com uma precisão maior o nível de açúcar no meu sangue. Coisa chata.

Após uma batida de carro (a mulher - tinha que ser mulher - bateu na traseira do nosso carro, nos lançando contra o táxi que freara repentinamente à nossa frente. O taxista deu no pé e a moça saiu do carro falando que era a primeira vez que acontecia isso com ela. Barbeira. Tentando nos ultrapassar em alta velocidade em um trecho engarrafado) chegamos ao laboratório. Desta vez tentamos um diferente, já que o outro mais parecia uma clínica de criogenia. Fui preparado hoje, de gorro e tudo, e encontrei um laboratório não tão frio. Bom.

Pegamos a senha e esperamos o atendimento, que não demorou muito. Ela pediu a minha identidade, que eu, aquela figura folclórica vestida para esquiar na neve, obviamente esqueci em casa. A do meu pai serviu. Feito o cadastro, eu perguntei como é que ia funcionar aquele exame duplo. Ela disse que iam extrair meu sangue, logo depois eu tomaria o "gostoso" e aguardaria mais duas horas para uma nova extração. Eu quis saber se poderia sair durante essas duas horas, porque eu costumo ter náuseas depois de um exame de sangue. Ainda mais tomando o "gostoso", o que quer que fosse isso. Pausa. Repare que eu disse ter náuseas após o exame. O mundo é dividido entre três tipos de pessoas. As que têm medo de exame de sangue e, portanto, acabam tendo enjôos antes da extração, aquelas que não têm medo nenhum do exame de sangue, e eu. Eu não tenho medo do exame de sangue. O que me apavora completamente é o adesivo. A moça tira o sangue, coloca o algodão, pede para apertar, e depois vem com aquele maldito adesivo. "Pronto, não precisa mais apertar! Olha que maravilha! Pode ir para casa! Próximo!" Eu costumo exigir explicações lógicas para tudo o que me é apresentado, mas não tenho uma para este fato que apresento agora. O medo simplesmente toma conta de mim diante daquele projeto de band-aid. Meu corpo não me obedece. A parte chata do meu cérebro diz "Adesivo, adesivo!", e é tudo desespero.

Mas é claro que eu não ia contar isso tudo àquela balconista. "Eu não me sinto muito bem depois de um exame de sangue. Náuseas, tontura, enjôo, sabe?" Ela soltou um risinho e disse que não, eu não poderia sair. O alvo para qualquer vômito que saísse da minha boca nas próximas duas horas já estava escolhido.

Fiquei esperando a hora da coleta, e pensando que pelo menos eu teria o que escrever caso acontecesse mais alguma coisa notável. Esse é um dos lados bons de se escrever. Tudo fica "menos pior". Fui chamado. Uma vez sentado no banquinho, ouvi a moça falar sozinha: "Tenque ter o dextrosol." Eu escrevo "tenque" porque, convenhamos, isso praticamente já virou um verbo. Muita gente responderia a um "Tem que ter o dextrosol." com um "Tenque, é?"

Eu tênhoque;
tu tensque;
ele tenque;
nós têmosque;
vós têndesque;
eles tênque.

"Eu não tenho dextrosol, não.", respondi prontamente. Sorte a moça não ter ouvido, porque as pessoas não conseguem identificar quando eu estou brincando. Perguntei em uma voz mais alta como se escrevia "dextrosol".

- Com X.
- E no fim é um S?
- L.
- Eu me referia à última sílaba. Antes do "ol".
- Ah, sim.

Falha de comunicação minha. Ela coletou o meu sangue, nem doeu. "Agora o dextrosol." O dextrosol tinha a aparência de um leite fermentado e um cheiro forte de milho. Como eu suspeitava, o apelido de "gostoso" que a balconista lhe dera era irônico. Ah, se eu vomitasse, ela ia ver só.

Tomei um quarto do dextrosol de uma vez. Parei um pouco para tomar um ar e tomei mais um oitavo. Nova pausa, e tomei mais 1/16 do líquido. Todo mundo sabe que essa progressão geométrica é infinita.

- Sabe, eu nunca tomei isso - disse a moça das agulhas.
- Pois devia experimentar. Delícia! - respondi, claramente segurando a vontade de vomitar.
- Pode tomar com calma. Se vomitar, vai ter que tomar outro copo cheio.

Que ajuda. Passei a razão da progressão para um quarto. Mas eventualmente aquele sacrifício parou. Peguei o copo d'água que estava ali ao lado e virei metade. "Ótimo, agora você vai esperar duas horas ali na recepção para fazer uma nova coleta.", disse ela, tirando o copo das minhas mãos. Eu pedi o copo de volta - o gosto do dextrosol agarrava mais que refão de música em língua desconhecida.

Sentado na recepção, conversei com meu pai sobre a placa que estava em cima do balcão. Eu estivera pensando sobre isso. Ela dizia "Dr. Fulano - bioquímica; Dr. Beltrano - hematologia". Os "doutores" tinham o mesmo sobrenome. O laboratório, pelo que vi nas diversas outras placas espalhadas pelo recinto, fazia exames de sangue, fezes e urina. O hematologista obviamente examinava o sangue. Ou seja, o pobre bioquímico ficava com o xixi e o cocô. Isso é injusto. Falei para o meu pai que o hematologista devia ser o pai. Ele disse que não, ele conhecia os dois, era o filho. Essa juventude...

Fui colocar mais água no meu copo. Próximo ao balcão havia um daqueles clássicos filtros de consultório. Girei a parte que dizia "gelada". A quantidade de água que saía era tão desprezível que eu girei também o que dizia "natural". O que, além de não adiantar, quanse resultou em desastre porque o "natural" estava completamente solto. Eu podia jurar que a balconista estava rindo atrás de mim. Sorte dela que eu não estava enjoado. Depois de um bom tempo, terminei de encher o copo e voltei para onde meu pai estava sentado. Meu lugar havia sido tomado.

Longas duas horas. Eventualmente, sentei perto de um policial. Um colega dele lhe falava repetidamente pelo rádio sobre uma "mulher meia gordinha". Eu não entendia muita coisa, mas quase toda frase dele tinha esse erro grotesco. "É uma mulher meia gordinha", repetia. E cinco minutos depois, vinha: "Sobre aquela mulher meia gordinha..." Eu não ouvia mais nada. Meia.

Fui novamente beber água. Meu pai havia sumido com o copo, então peguei outro. Ou melhor, tentei. Diferente dos "porta-copos" tradicionais que eu conheço, este trazia uma pilha de copos plásticos de cabeça para baixo, com uma alavanca horizontal logo embaixo de tudo e uma instrução clara e aparentemente simples. "Puxe a alavanca e espere o copo cair". Eu puxei a alavanca e esperei. Nada. Puxei de novo. Nada. Ela devia estar rindo de novo. Um senhor se posicionou ao meu lado e observou um pouco a minha luta. Afastei-me como que dizendo "Quer tentar?". Ele veio, puxou uma, puxou duas, e partiu para a ignorância. Tirou na marra três copos totalmente amassados. A geração antiga é que sabe resolver as coisas. Agradeci, coloquei água pela metade no meu copo, agradeci de novo e voltei ao meu assento. Cogitava com meu pai a possibilidade de fazer a segunda coleta no mesmo braço, para ficar com apenas um adesivo, quando fui chamado.

Hoje foi um bom dia. Dois adesivos e nenhum enjôo.

4 comentários:

Anônimo

18 de março de 2008 00:48

otimo blog
essas historias de tirar sangue sempre e ruim
rsrsrs
vlw otima postagem
mostrou um pouco da vida de um cidadao q tem medo do adesivo rsrsr

Bianca Rie

18 de março de 2008 21:10

Medo de adesivo...
É...Cada um com seu medo.

Muito obrigada pelo comentário no meu blog, eu adorei *-*

Luiz Nihil

19 de março de 2008 00:56

Bah mas tu é muito fresco, uma coisa é ter medo de mortais gafanhotos, mas adesivo? Pelo amor de deus hein filho?

XD


=*

Juciellen

19 de março de 2008 01:20

haushuahsuhauhsuahushausaua


meo.....cada vez melhor, seu blog, Renato....serio.!

parabens ^^


=**