A hora da fome

O Big Brother me faz pensar, e eu fico feliz em poder dizer que não, não é o que você está pensando.

Eu tenho fome nas horas mais inoportunas, como por exemplo o horário do Big Brother Brasil. E devido a anos de costume, acabo por comer sentado no sofá e me tornar um telespectador de um programa que preferiria não assistir. A minha família vê o reality show, assim como a sua e a dele (eu não sei a quem estou me referindo com esse "dele", mas você sabe: ele assiste ao BBB, e você sabe disso), e eu sou arrastado. Pela barriga.

Pois ontem foi dia de eliminação. Eu não estava sabendo e, quando falei isso, quem pôde desgrudar os olhos da tela me olhou com cara de "esse Renato não tem jeito". O BBB 8 está na reta final, mas o que importa realmente é que o sanduíche estava bom. Só faltava um ketchup. Fui à cozinha buscar o condimento, ouvindo "Renato, é agora, é agora, senta aí!". E foi na cozinha que eu me senti privilegiado.

À esquerda da geladeira havia uma janela bem grande. Dela dava para ver toda a vizinhança. E em cada apartamento, uma luz acesa. A da sala de televisão. Eu vi famílias inteiras sentadas nos sofás, e alguns parentes em pé do lado. Em todo apartamento que eu podia avistar, as pessoas tinham os olhos grudados no Pedro Bial, que, imaginei, devia estar fazendo novamente aquele drama todo que faz com qualquer coisa (nunca vou me esquecer das "Crônicas do Bial" da última copa do mundo). Eu podia ver todo mundo, mas ninguém podia me ver. Ninguém sabia que eu estava lá, e nem queria saber. Eu me senti como uma presença etérea, um observador, um habitante de algum mundo paralelo, o dono de uma bola de cristal defeituosa, um voyeur, uma pessoa livre, um maço de notas de um real, uma pessoa livre mas sem chave alguma, um caso à parte, um carteiro a pé, tudo isso junto. O "maço de notas de um real" foi só para testar se você está lendo com atenção. O "carteiro a pé" é verdade. A sensação que eu tive ao ver toda a vizinhança presa assim foi estranha, e me fez pensar.

O Big Brother Brasil é a minha chave para a liberdade condominal. Eu poderia ver Toy Story sem despertar a curiosidade das pessoas a respeito dos motivos que fazem deste um dos meus filmes favoritos; eu poderia observar as minhas vizinhas ginastas, que aliás provavelmente estariam de camisola a essa hora; eu poderia ouvir canções que têm letras ridículas, mas eu gosto, sem provocar risinhos; eu poderia dançar nu na varanda com as luzes acesas; eu poderia cozinhar, já que a minha família, grande repressora dos meus dotes culinários, também faz parte do grande público; eu poderia fazer gestos obcenos para a televisão após o resultado negativo de alguma partida de videogame sem causar impressões ruins a ninguém; eu poderia usar o banheiro sem fechar a porta; eu poderia usar o banheiro sem fechar a porta dele e a porta da biblioteca, que fica à frente ; eu poderia por um momento parar de amaldiçoar a total falta de cortinas em minha morada.

Ah, quantas coisas eu poderia fazer. Pena que que nessa hora eu tenho fome.

5 comentários:

Bianca Rie

24 de março de 2008 00:27

Meu Deus...
Que feliz...
tsc tsc

Luiz Nihil

24 de março de 2008 02:42

Big Brother é a maior prova da alienação do povo brasileiro. =/

Melke

25 de março de 2008 18:16

Isso q o nihil disse com um [2]


*preguiça de copiar e colar u.u*

Eduardo

1 de abril de 2008 09:20

Parou? T_T

Desde o dia 23...

Melke

6 de abril de 2008 03:10

porra, teu blog é o melhor

atualize tetudo Ò______Ó