Eu já estava até de mochila nas costas quando olhei pela janela. Lá estava, no ponto bem em frente à minha casa, o meu ônibus que só passa de meia em meia hora. Suspirei, li algumas crônicas do Prata e desci. Não havia ninguém na calçada além de mim e uma mulher com um balde. Ela não estava esperando ônibus, mas sim se preparando para lavar a calçada. Fiquei olhando para o horizonte à espera da condução, perdido nos meus devaneios inúteis. Foi aí que aconteceu. A mulher do balde começou a lavar a calçada. A água vinha escorrendo lá de cima, passava por mim e caía no asfalto. Havia água atrás de mim, havia água à minha esquerda, havia água à minha direita. Olhei para baixo esperando encontrar meu tênis ensopado e fiquei surpreso ao ver que não não havia água embaixo de mim. Ela descia lá de trás, se separava em duas frentes antes de encostar em mim e se juntava novamente mais adiante. A mulher não parava de despejar água, mas eu continuava ilhado. Na única fração seca daquele chão. A minha parte da calçada não era nem um pouco diferente do resto, portanto só pude concluir que Beus estava falando comigo novamente. Olhei para o céu à procura de uma mensagem mais clara, mas tudo o que pude ver era o teto do ponto de ônibus. Ônibus. Ele me persegue.
Entrei no ônibus pensando no que ele guardava para mim. E que estranho, não guardava absolutamente nada. Ninguém falava nada interessante, ninguém fazia nada interessante. A viagem até a faculdade foi um saco, portanto eu só poderia esperar que a de volta teria algo que me chamasse a atenção. Ou isso, ou Beus estava de sacanagem comigo.
Existe um ônibus conhecido por aqui por estar sempre lotado. Mesmo se você for a primeira pessoa a entrar nele, vai inexplicavelmente encontrá-lo lotado. Sim, o 507 põe em xeque tudo aquilo que você pensa ser verdade. Eu entrei no 507, e justamente no horário de pico. Às seis horas da tarde, ele quebra outra lei: a que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Na verdade ele arranja é uma brecha na regra, porque ninguém nunca falou nada sobre mais de três corpos no mesmo lugar. Eu entrei no 507 esperando ficar, com sorte, em pé, e encontrei um assento vazio ao lado de uma moça. A moça, como Beus fez questão de apontar para mim, parecia a mais normal das pessoas. Esta seria mais uma entediante travessia da cidade.
Ainda na metade do percurso, nada. Nenhuma coisinha digna de ser notada. Dois garotos na minha frente falavam sobre como é difícil a adolescência. Coisa de pré-adolescente. Chato. O dia havia sido cansativo, então fechei os olhos por alguns minutos. Para descansar a vista. É claro que acabei por dormir. Um sono de poucos minutos depois de um dia daqueles é bom demais. E quando eu acordei, vi que estava praticamente deitado no colo da jovem ao lado. Que cena. Mais um tempinho dormindo e eu aposto que eu estaria já abraçado à perna dela, babando. Levantei-me rápido de susto e vi que ela estava dormindo também. Sorte a minha. Verifiquei se a calça dela não estava babada, e fiquei aliviado. E a pior sensação que se pode ter quando está com sono é alívio - dá mais sono ainda. Cochilei de novo. Acordei já quase no terminal, novamente prestes a incomodar minha vizinha. "Por que minha cabeça não pode tombar para a esquerda, meu Beus!? É tão simples!" A moça acordou instantaneamente depois de mim, e eu olhei para o outro lado com a maior cara de desperto que pude fazer. Ah, Beus. Que sacanagem. A pessoa estranha no ônibus era eu.

2 comentários:
29 de abril de 2008 11:09
Renato, vc é estranho em qualquer lugar!!!
Na faculdade, por exemplo, vc só perde pro PO (dele é impossível ganhar) e pro 24 (que é estranho por não falar nada durante muitos dias). Depois dos dois, vc é o mais estranho (sem contar com os escrotos, aquilo lá não tem chance alguma de ser estranho, eles são alguns níveis abaixo).
29 de abril de 2008 20:54
Obrigado.
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