Ônibus... e o Mussolini

Eu esperava pelo ônibus havia alguns minutos, quando ela surgiu. A dona vinha andando pela calçada em direção à praia. Uma mulher normal, devia ter por volta de 40 anos. Passou na frente do ponto de ônibus, passou na minha frente... e parou. Olhei para ela e vi que seu rosto estava voltado na minha direção. Ela estava de óculos escuros, então eu não podia ver exatamente aonde olhava. Me concentrei, procurei, e achei as pupilas. Ela me encarava. Ali, absolutamente sem expressão nenhuma, ela olhava diretamente nos meus olhos. Eu sabia que era comigo, mas por via das dúvidas olhei para trás. Quando voltei, ela já havia retomado seu caminho.

Estranho. Muito estranho. Fiquei pensando sobre isso até o ônibus chegar.

Entrei na condução e me dirigi ao fundo, como sempre faço. O fundo do ônibus, caso o leitor não saiba, tem cinco bancos, sendo o do meio extremamente desconfortável por não haver nenhum tipo de apoio por perto além, é claro, dos braços (da cadeira e das pessoas em volta). O dois bancos do canto esquerdo estavam ocupados, assim como o do meio. "Que idiota esse cara.", pensei eu, "Sentando no banco do meio, que idiota." e ocupei o banco da extrema direita, também conhecido como Mussolini. O Mussolini é, de longe, o meu assento favorito no ônibus.

"Que idiota esse cara.", deve ter pensado o rapaz que estava no assento do centro, "Sentando no banco da extrema direita, que idiota.", e com razão. Olhei pela janela e tomei um susto. Ela estava tão depredada que desviava os rais de luz a ponto de mudar as cores do que estava do lado de fora. Se até algumas cores mudavam, imagina as formas. E imagina as formas aparecendo várias vezes, sobrepostas, é claro. A visão do Mussolini estava o maior barato. Voltei-me para o interior do ônibus e me senti tonto. Com a visão aparentemente embaçada, pisquei os olhos várias vezes inutilmente. O tipo de coisa que acontece quando recebemos estímulos visuais muito diferentes em um espaço de tempo muito curto. Como eu não queria ficar atordoado a viagem inteira, cheguei para o banco imediatamente à esquerda do Mussolini.

Eu estava ali sentado havia alguns minutos, quando ela surgiu. A dona vinha cambaleando pela condução com uma mala enorme na mão. Uma mulher normal, devia ter por volta de 30 anos. Passou por todos os bancos e veio parar na minha frente. Ela queria o Mussolini. Para deixá-la passar, eu teria que me levantar, sair do canto do ônibus, esperar que a dona se sentasse para voltar então ao meu assento. Eu não conseguiria fazer isso sem que o rapaz do banco do centro tirasse as pernas do caminho. E ele fingia que não era com ele. A solução mais pacífica e energeticamente barata seria voltar ao Mussolini e liberar o banco para a dona. Foi o que eu fiz. Mas desta vez eu não ia ficar tonto, não. Virei-me para a janela e decidi não voltar mais a atenção ao interior do ônibus.

Por todo o trajeto apreciamos a rara paisagem psicodélica. Eu e o Mussolini.

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Eu observava a paisagem quando uma garotinha acenou para mim da rua. Pode ter sido a visão meio errada, mas ela acenava claramente para mim. Fiquei pasmo e não consegui retribuir o cumprimento a tempo. Logo eu, que já brinquei tantas vezes do "Jogo do Tchauzinho". O quê? Não conhece? O jogo é muito simples. De dentro do ônibus, os jogadores devem acenar para os pedestres. A cada vez que seu aceno obtém resposta, o jogador ganha pontos. Como até hoje só joguei com homens, a tabela permanece invaríavel: 3 pontos para mulheres bonitas, 5 pontos para mulheres bonitas na companhia de um homem, 10 pontos para mulheres bonitas na companhia de um homem caso o homem queira tirar satisfação (com você ou com ela). Ao final da viagem, os pontos são somados e o vencedor declarado. Diversão garantida. Pois bem. Eu, jogador do Jogo do Tchauzinho, perdi. Para uma garotinha. Pensando bem, eu provavelmente teria tido tempo para acenar de volta se não estivesse no fundo do ônibus (que não tem janela atrás). É, culpa do Mussolini.

4 comentários:

Daniel Araujo

3 de junho de 2008 01:35

Eu já vi pessoas lombrando com muita cousa, mas com a janela quebrada foi a primeira vez.
Huiahuiahuiahuia!

Luiz Nihil

3 de junho de 2008 02:05

Eu sou o campeão do jogo do Tchauzinho.

;*

Daniel Araujo

5 de junho de 2008 01:27

Ah, recebi um selo e passeio para ti. Depois confere lá no meu blog. :)

Abraços!

Eduardo

13 de junho de 2008 23:27

Sempre soube desse seu lado doido...
mas liga nao..
todos sabem que o efeito não era da janela
e sim dakela coisa q vc consome diáriamente perto do predio de humanas.
=***