Tapa-olho

É muito bom falar de acontecimentos da minha vida aqui. Eu gosto porque eu imagino que, por mais estranhos que sejam, eles podem também acontecer com cada leitor. Entretanto, o caso que eu vou contar agora é diferente. Ele aconteceu comigo, mas certamente não vai contecer com você. Ah, pode apostar. Devo também acrescentar que não deves ler os parágrafos seguintes comendo. E não diga que não avisei.

Foi pouco depois do meu aniversário de 17 anos. Eu acordei e não consegui abrir os olhos. Eles ardiam, e por mais que forçasse as pálpebras, não podia ver a luz do dia. "Conjuntivite", pensei. Por sorte eu já decorara o caminho até o banheiro (caminho que já percorri inclusive dormindo, mas isso fica para outra história). Com muita água corrente desgrudei os olhos. No espelho, vi que um deles (o direito, se não me engano) estava muito vermelho. O esquerdo, ao que me pareceu, não tinha problema algum e o que me impedia de abri-lo era um simples fator psicológico. Conjuntivite de um olho só... Lembro-me que quando eu era pequeno houve certa vez uma epidemia de conjuntivite. Eu ia sempre de óculos escuros para escola, evitando o mal. Até que um belo dia a maldita me pegou,e todos os outros já estavam ficando bem. É, só eu de conjuntivite na escola toda. Voltando à conjuntivite de um olho só... Eu imaginei que eventualmente o esquerdo também seria atingido, que eu tatearia o caminho ao toalete por mais algumas manhãs e pronto. Nada demais. Nada demais até eu começar a chorar sangue.

"Ai, conjuntivite é um saco... A gente fica lacrimejando o tempo todo.", disse eu, limpando as "lágrimas" do rosto. E vendo a expressão de pavor de seja-lá-quem-estava-conversando-comigo, olhei para a minha mão. Sangue. Corri para o melhor amigo de quem sofre de conjuntivite - o banheiro - e olhei para o espelho. A primeira reação que o cérebro humano tem frente a situações desesperadoras é fascinante. Beira o aleatório. "Que legal! Eu estou chorando sangue! Literalmente!", pensei ao ver aquela figura estranha com um linha vermelha descendo pela bochecha direita. Óbvio que alguns segundos depois a reação mudou para "puta-merda-to-ferrado-que-diabos-é-isso".

Meu pai me procurou por oftalmologistas no catálogo, e encontrou um que estaria fazendo plantão à noite na cidade vizinha. Até a noite já haviam passado horas, e litros de colírio. Como se colírio fosse melhorar alguma coisa. Eu entrei no carro com uma dor terrível no olho direito, e já enxergando meio embaçado.

- Ei, pai, não estou enxergando muito bem.

- Natural, filho, afinal você está lacrimejando. - respondeu meu pai de olho no trânsito.

- Sangrando, você quer dizer.

Eu estava lacrimejando há uns dois dias já, e sangrando há um. Por que só agora estava vendo tudo embaçado? Olhando para a paisagem, fechei o olho esquerdo. O bom. A primeira reação que o cérebro humano tem frente a situações desesperadoras é fascinante. Beira o aleatório. "Será que sendo cego de um olho eu seria dispensado do serviço militar?", pensei ao notar que tudo o que o meu olho direito enxergava era uma grande mancha cinza. Sabe quando você fecha os olhos? Tudo o que você enxerga é uma grande mancha preta. Agora imagine que ela é cinza, e você terá exatamente o que eu via com o olho direito aberto e o esquerdo fechado. Como essa situação era bem mais desesperadora que a anterior, a quantidade de pensamentos absurdos que passou pela minha cabeça foi muito maior. Desde "droga, agora eu tenho o dobro de chance de ficar completamente cego. Falta pouco tempo para o vestibular, e eu não pedi prova especial" até "não, olho de vidro seria só se eu perdesse o olho e não apenas a visão", nada muito sério me ocupou a mente. "Será que eu fico bonito de tapa-olho?"

O consultório ficava em um lugar que eu não imaginava existir naquela cidade. Eu não sabia dizer como havia chegado lá, nem como sairia depois da consulta. Mas nada disso importava, já que eu estava um passo mais próximo de ser apelidado "Capitão Gancho". Entramos no consultório e ficamos surpresos pela quantidade de gente ali. Como é que podia haver tantas pessoas com emergências oftalmológicas assim? Coloquei meus óculos escuros, para evitar perguntas e comentários, e me sentei enquanto meu pai conversava com a secretária. Quando ele se sentou ao meu lado dizendo que havia uns cinco ainda na minha frente, um mulher se dirigiu furiosamente ao balcão.

- Quantas horas vou ter que esperar aqui até ser atendida? Eu trabalho amanhã de manhã, e não estou conseguindo ler nada com essas lentes! - gritava a dona, me dando vontade de levantar e berrar "Eu estou ficando cego de um olho, porra! Estou chorando sangue! Então pare de reclamar de uma porcaria de visão fora de foco, que merda!". Mas eu fiquei quieto esperando a minha vez. Que demorou um bocado.

- Primeiro, nós vamos ter que limpar isso aí. - disse o médico após a minha explicação do problema. Ele apontou para uma cadeira e foi pegar alguns cotonetes enquanto eu me sentava.

- Hum... o que exatamente você vai fazer? - perguntei, assustado com a possibilidade de ter um cotonete enfiado no olho. Aquilo me parecia tão bizarro, bruto e anti-profissional.

- Já falei, eu vou tirar esse sangue todo que está acumulado aí no seu olho. Se doer, é só gritar que eu paro.

Eu gritei, e ele obviamentenão parou. "Calma, já está acabando." Eu não sabia que um cotonete poderia entrar tão fundo nas órbitas de uma pessoa. Com o olho direito, eu observava tudo atentamente. Entra cotonete branquinho sai cotonete vermelho. Entra novo cotonete branquinho, sai novo cotonete vermelho. E a lixeira ao lado enchendo.

- Pronto. - disse ele.

Eu estava com os olhos abertos durante toda a limpeza (claro, a pálpebra direita pelo menos tinha que estar levantada) mas foi só no fim que eu percebi que a minha visão havia voltado. "Funcionou! Funcionou!". Eu fiz questão depois de levar o cartão do doutor, para não me esquecer de que ele fez um ótimo trabalho.

De volta à sua mesa, o médico começou a escrever aquela receita que só os vendedores das farmácias entendem.

- Olha, Renato, em todos esses anos de medicina eu nunca havia visto nada parecido. É um caso único... Parece que você tem uma espinha atrás do olho.

E eu fiquei sem resposta. Já havia tido algumas espinhas incômodas, mas atrás do olho?!

- O seu olho reagiu a ela como a um corpo estranho, por isso as lágrimas. E como os olhos estão sempre em movimento, ela foi estourada repetidas vezes. E vai continuar por algum tempo. - concluiu, emendando com a explicação dos itens contidos na receita.

"Todos os adolescentes têm problemas com espinhas" é uma frase mentirosa. Eu tive problemas com espinhas, e ninguém mais sabe como é isso. Aliás, por falar em problemas, a minha festa de formatura era no dia seguinte. Já foi a uma festa (que não fosse a fantasia) de tapa-olho? Não? Não sabe o que está perdendo.

7 comentários:

fleurchan

17 de maio de 2008 18:17

uhsuhaushuahsa
primeira coisa que a gente pensa depois de ler:
"HAHAHAAHA SE FUDEEEEEEEEEEU"

xD

mas nossa sra, uma espinha atrás do olho?
experimnta ter um furunculo na beira do * pra ver...

mas uma coisa eu concordei, a gente sempre pensa no futuro... uma vez queimei a mão completamente e fiquei pensando no hospital o que eu seria da vida... com uma mão inútil ..
>.<

xD

beijónes meu novo escritor favorito!

Luiz Nihil

18 de maio de 2008 00:01

Santas também choram sangue...algumas.

Bianca Rie

18 de maio de 2008 23:50

Olhe pelo lado bom...
Você podia ter tido uma espinha em cada olho :D


"Santas também choram sangue...algumas."

Eu ri muito xDDD

Bianca Rie

25 de maio de 2008 17:41

...


Blog abandonado


...

fleurchan

27 de maio de 2008 09:57

é =/

Luiz Nihil

28 de maio de 2008 22:17

Agora que ele é protituto do funk, ta pegando VARIAS TXUTXUCAS e esquece o blog =/

Lucy

12 de janeiro de 2009 12:39

... que pena ele ter abandonado o blog (mas eu tb abandonei o meu, então...)...

Eu to com uma espinha por dentro da pálpebra. Bem, tem a cabeça branca e tá inchado. Não fui ao médico pq só agora que eu levantei a pálpebra e consegui enxergar no espelho aquela bolinha branca... enfim... tomara q seja uma simples espinha mesmo. =P