Aconteceu ontem e já estou escrevendo. Foi um dos dias mais engraçados da minha vida, oras, não posso esquecer os detalhes.
Estávamos na cantina esnobe da UFES (as cantinas que conheço lá lá são a esnobe, a lotada, a apertada, a escondida e a próxima), eu e o Gabriel "mala". Ele mexia seu capuccino com uma das colheres públicas do estabelecimento - elas ficam em uma tigela cheia de grãos de café no balcão, com uma outra tigela com água ao lado, e só se pode esperar que cada um faça a sua parte e apenas mexa o café com elas - e distraidamente lambeu a colher após misturar a bebida. Lambeu e olhou para mim com cara de quem percebeu a merda que fez. "A questão é: quantas pessoas fizeram o mesmo antes de você?" - brinquei. Ele terminou de misturar o chantily ao café e jogou a colher na tigela de água apressadamente. A água se tranformou em café, é claro. E com bolhas em cima. O cara da cantina recolheu as duas tigelas e todas as colheres com a maior cara de nojo que eu vi no dia, e nós gargalhamos enquanto ele não voltava. Nunca havíamos visto ninguém recolher aquelas colheres. Foi aí que eu citei.
- E então, Gabriel? Vai comprar o Guara Gay?
Flashback. Nós conhecêramos a estranha bebida dois dias atrás, na mesma cantina. Ele estava no meio dos refrescos comuns de guaraná, bem ali, o Guara Gay. "Talvez a intenção seja dizer que é uma bebida alegre" - disse minha mãe quando contei o fato. Não, ele era rosa e tinha um arco-íris. O Guara Gay era, definitivamente, gay. Nós estávamos nos perguntando como diabos o fabricante esperava vender aquilo - quer dizer, o público era limitado, uma desvantagem em relação ao guaraná comum que é bebido por todos. - quando a moça do caixa disse: "Vende bem, sabia? Estamos na UFES, afinal. Aliás, hoje compraram um monte por causa daquele evento que vai acontecer ali do lado." Nós não olharíamos para o lado por nada neste mundo. Nunca saberemos que evento era esse, e ainda bem. Fim do flashback.
- Mas deve ser muito caro! E comprar pra quê?
- Ah, dá de presente pro Filipe. Ele vai se amarrar.
- Hum... Vou ver. Se o dinheiro der... - e para o cara das colheres - Ei, quanto é que custa o Guara Gay?
- Um e vinte.
E foi para o caixa - Um Guara Gay, por favor.
"Refresco de guaraná", dizia a embalagem. Gabriel enfatizou o "refresco" enquanto lia e o colocou no bolso. Estávamos prontos agora para procurar Filipe, que naquele momento poderia estar em qualquer canto da UFES. Eram duas horas livres, um buraco no horário entre as duas aulas da tarde que não existia para os outros. Andávamos pela estrada da biblioteca ao CT-IX, um dos caminhos mais remotos da universidade, quando o Gabriel apontou para o mato.
- Olha só! Um cara de jaleco branco e máscara empurrando um carrinho de mão! Muito suspeito!
De fato, era uma figura muito suspeita. Ele ia em direção a um prédio branco cujo propósito nunca soubemos.
- Ah não, a gente precisa seguir esse cara.
- Ficou maluco? Ele pega um daqueles paninhos brancos, te desmaia e faz experiências com você! Nunca mexa com os caras de jaleco branco e máscara.
- Ah, mas eu estou armado - disse, batendo no bolso.
- OK, mas da próxima vez diga isso quando não houver nenhum guarda perto de você.
Havíamos chegado ao lado do CT-IX, e um guarda nos encarava. Cassetete de um lado, arma do outro, braços cruzados e uma cara nada amigável. Ele com certeza ouvira a parte do "armado", e começava a olhar para o bolso do Gabriel. Imitei-o e e não pude deixar de rir - o copo de Guara Gay fazia um volume suspeitíssimo que estava para nos meter no mal-entendido mais engraçado da história. Voltei a olhar para cima e tomei um susto. O guarda olhava agora para mim. E eu ainda não havia parado de rir.
Dus figuras supeitas: um sujeito supostamente armado e um outro que ria da cara do guarda. Não lhe faltavam motivos para dizer "mãos na parede", revistar o Gabriel, encontrar o Guara Gay e ficar muito puto com isso. Mas não foi isso que ele fez. Simplesmente nos deixou seguir nosso caminho ao CT-IX sob um olhar de advertência. Entramos no prédio e gargalhamos feito bestas enquanto procurávamos pelo Filipe. Nem sinal.
- Vamos olhar lá na cantina próxima, ele costuma ficar por lá - sugeri e, tendo Gabriel concordado, acrescentei - mas antes, eu duvido que você tem coragem de andar em direção ao guarda com a mão no bolso e voltar.
- Ah, mas eu vou. E com essa cara ainda - respondeu, fazendo a expressão mais suspeita que pode haver. E saiu do prédio.
Eu saí também, mas fui na direção oposta. Queria ser um mero expectador desta vez. Gabriel andou até mais ou menos metade da distância e voltou. E o guarda não tirava os olhos dele.
- Viu? Nada demais. Agora vamos procurar o Filipe.
- Sim! Vamos!
Gabriel, de costas, não podia ver. Mas o guarda vinha na nossa direção. É claro que eu queria procurar o Filipe. Bem longe dali.
- Que cara é essa, Renato? - perguntou o mala enquanto passávamos pelo CT - VII (não se engane, leitor, o CT-VII é imediatamente próximo ao CT-IX. Os prédios do Centro Tecnológico da UFES são CT-I, CT-II, CT-III, CT-IV, CT-VII e CT-IX. Não pergunte onde estão o cinco, o seis e o oito.)
- Não olhe para trás. O guarda está seguindo a gente.
Apressamos o passo e chegamos à cantina, para descobrir que Filipe não estava lá.
- Mas que droga, onde esse cara foi se meter?
- Ele pode estar em qualquer ponto da UFES - e, olhando para o relógio - Afinal, ainda faltam mais de uma hora e meia para a aula dele.
- Uma e meia? Caramba, já estamos atrasado para a aula de cálculo. Deixa isso para lá, a gente acha ele depois.
E ao virar para trás, nos deparamos com uma perspectiva assustadora. O único caminho se estendia da nossa localização até o CT-VII, passando no meio de dois prédios. E ali no final estava o guarda. Arma no bolso, cassetete na mão, um pé no banco e uma expressão desafiadora no rosto. Nós queríamos ver a aula, e para isso deveríamos passar por ele.
- Sabe, - disse eu - eu estava pensando. Que tal você pegar esse Guara Gay, escrever de caneta um "d" ali no meio e passar pelo guarda bebendo? Aí você pára e pergunta: "Quer um gole?" Um gole de "GuarDa Gay"! Seria perfeito, não?
- É, aí eu vou preso.
- Exatamente! Você estará vivendo a piada! Geraria uma bela biografia.
Nós andávamos sem saber ao certo nosso destino, mas ríamos como nunca. Aula? Prisão? Tudo dependia do guarda gay.

7 comentários:
7 de setembro de 2008 08:36
Estou curioso.
8 de setembro de 2008 14:16
acaba aí?
8 de setembro de 2008 23:23
quando eu não venho nesse blog, ele atualiza...¬¬
25 de setembro de 2008 00:46
Blog diz:
Pai, porque me abandonaste?
2 de outubro de 2008 01:55
Huiahuiahuiahuiahuiahuiahuia!
Caralho, teu blog é diversão garantida sempre! Tempos que eu não vinha aqui, mas, novamente, não saí iludido com o mundo. ;)
Abracetas!
7 de outubro de 2008 19:36
Blogger Luiz Nihil disse...
Blog diz:
Pai, porque me abandonaste?
Pai diz:
Porque eu não sou seu pai de verdade
10 de outubro de 2008 01:20
Como diria Luís Miguel, o papagaio...
"AI QUE BRUTO!"
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