Muro de isopor

Estava me lembrando da época em que eu era um pequeno projeto de homem brincando na rua com os amigos. Tantas memórias daquela rua... A casa do vigia, atrás da qual sempre se escondia metade dos participantes do esconde-esconde; a goiabeira (tinha nome, a danada da árvore: "Puta", conforme estava escrito no caule), única árvore em que eu tinha coragem de subir; o cachorro gay Bóris e sua bola de tênis babada que ele jogava na gente sempre que passávamos na frente do portão e a gente tinha que lançar o mais longe possível no jardim para que não desse tempo dele voltar e ficar com aquela cara de pidão; o cachorro gay Brutus que deixou todo mundo horrorizado quando descobrimos que ele era macho, e portanto sua relação com Bóris era inaceitável para bons cristãos que éramos na época; o vizinho mala do prédio chique da frente que sempre pedia pro porteiro tirar a gente do gramado exterior do edifício... Mas o principal naquela rua sem saída era o muro.

O muro cinza se estendia por meio quarteirão e literalmente fechava a rua. Para os bravos sem medo de altura, era possível subir e ver aquela extensão toda de pura liberdade. É, hoje em dia eu conheço aquilo como "terreno baldio", mas na época era liberdade da melhor. E o muro estava lá, intransponível, até o dia em que foi atingido, não lembro como, por um paralelepípedo. Ali, entre os massivos blocos de concreto, ali naquele cimento que sustentava tudo, a pedra tirou uma lasca e revelou: embaixo de uma fina camada de massa, tudo o que ligava os blocos era isopor. Qual não foi a nossa alegria ao descobrir que o que nos separava do perfeito território do pique-bandeira e futebol era um muro de isopor.

Hoje, quando me sinto inquieto, impotente diante de alguma situação que não posso controlar, eu me lembro daquele muro. Tudo o que eu quero nesses momentos é um grande muro de isopor, para correr e bater de cara nele. Quebrar o muro com nada além de vontade e velocidade. Extravasar. É assim que tenho me sentido no último mês.

"Obrigado pelos [altos números de] votos! A cidade saiu ganhando!", dizia o anúncio que vi, do ônibus, na entrada da ponte. Eu não votei no nosso futuro prefeito. E não conheço ninguém que tenha votado nele por razão melhor que "ele vai garantir o emprego do meu irmão". Aliás, "irmão" é o que não falta para os evangélicos que o elegeram. Eu quero um muro de isopor porque da igreja eu não posso ganhar. Eu posso dizer que Beus ganha de Deus na queda de braço, eu posso colocar botão de camisa na sacola de dízimo, eu posso ter um ataque de tosse proposital no meio da pregação, mas eu não posso derrotá-los. Tudo o que eu consigo chamar de luta é protestar aqui contra essa ferramente tão poderosa de alienação das massas. Gente, o Estado aqui era para ser laico.

--------//--------

Frases sobre mim:

"100% ok" ~ Pessoal da faculdade.

"Esse cara estuda pacas!" ~ Eu.

"Estuda nada!" ~ Professores universitários.

"Um câncer na comunidade!" ~ Líder comunitário.

"Sumido, ele!" ~ Todo mundo da ala virtual do meu círculo social.

"Lindão!" ~ Ala feminina do... mundo.

Mas a frase que mais importa aqui é:

"Esteve ausente no meu aniversário!" ~ Caca Diária.

Eu me esqueço dos aniversários de todos, inclusive o meu próprio. Não podia ser diferente com a minha ferramenta favorita de expressão. Parabéns atrasados para o Caca Diária, que já agüentou mais de um ano veicular a opinião de um escritor besta. Parabéns para os leitores que agüentaram acompanhar. Espero estar aqui ainda no próximo Outubro para acertar a data. Saudações.

2 comentários:

Khiwa

18 de novembro de 2008 01:02

Feliz niver ;D
Embora esteja atualizando pouco... Parabens pelo trabalho de contar suas aventuras estranhas... alias.. poe estranhas nisso neh :P

* rapaz vc sabe que a fama de esquecido eh minha.. entao pode arrumar outra deculpa pra ter esquecido! *


Bjundas ;***

Bianca Rie

30 de novembro de 2008 18:24

Ele só fala que voltou a postar. Vai passar um mês e só com UM post ._.