Uma história de ônibus que começa no ônibus. Eu estava no meu assento observando como as árvores do morro do convento estavam alternando entre secas e folhadas em um padrão perfeito quando senti um toque rápido no ombro. Olhei para o lado e vi que a moça ao meu lado não me olhava de volta. "Cutucão não foi", pensei, "um esbarrão, talvez". Voltei a me entreter com a paisagem - desta vez seis casas com uma piscina no meio, eu tentava descobrir a qual casa ela pertencia. Foi quando senti um novo toque. Virei-me novamente e nada. Decidi desistir da paisagem e descobrir o que estava acontecendo. Na terceira vez, eu vi - a minha companheira de viagem quicava entre um cochilo e outro, e na curva depois da ponte desabou sobre meu ombro e não acordou mais até o terminal.
Isso me lembrou do episódio que relatei aqui sob o título de "Ônibus... e eu" (se não leu, leia agora por favor - os textos se complementam, é uma beleza). Segurei as risadas que vieram devido à relação entre os casos com medo do que os outros passageiros pudessem pensar. Analisando as duas situações, não pude deixar de pensar "que sorte". Que sorte que eram mulheres, sem nenhuma implicação além do que segue: se fosse um homem, eu o poria de lado. Gentilmente, disfarçadamente, mas poria. Não só por mim, mas por ele. Porque no outro caso, eu também odiaria acordar abraçado à perna de um pobre rapaz no ônibus. Hoje percebi que é assim que funciona. Vizinhos no ônibus, sexos opostos. Pequenos constrangimentos em lugar dos maiores.
Você, mulher, quando vir aquele rapaz sentando-se ao seu lado com tantos assentos vazios, não pense que lá vem cantada ruim e conversa sobre o tempo. Ele não quer necessariamente te levar para a cama - talvez vocês acabem dormindo ali mesmo.
