A casa do caralho

O meu telefone sempre tocou muito. Às vezes querem falar com Marlene, às vezes querem falar com Edgar, e quando não é a cobrar eu "sinto muito, não faço a menor idéia de quem seja, tchau". Por mais que eu atraia enganos, ainda assim geralmente é para mim. Ou pelo menos para o meu pai, que tem o mesmo nome que eu, e quando o telefonema é para ele eu costumo conversar um pouco até perceber que o assunto está caminhando para além da minha compreensão e perguntar quem diabos está falando.

- Quem diabos está falando? - perguntei ao rapaz que tinha sotaque paulista.

- Aqui é o Fernando do banco [insira aqui um nome de banco]. O senhor já conhece o nosso cartão que [insira aqui muitas, muitas vantagens. Supostamente, pelo menos]?

- Hum... Conheço agora. Mas não estou interessado.

- Mas por que, senhor Renato? O senhor já trabalha com algum cartão?

- Não, mas é que...

- Então, o nosso cartão [insira aqui as mesmas vantagens, repetindo uma delas por duaz vezes. Tenho certeza de que ele repetiu].

- Olha, Fernando, o seu cartão é maravilhoso e tudo mais, mas eu não estou interessado. O limite é alto demais, se eu tivesse um cartão desse eu não poderia pagar.

- O senhor trabalha, senhor Renato?

- Não. - respondi, pensando em como o tal Fernando precisava urgentemente de aprender outros pronomes de tratamento.

- Recebe aposentadoria?

- Tem certeza de que você sabe quem sou eu?

- Mesada?

- Não.

- Algum tipo de renda?

- Nananinanão. - devolvi com um sorriso no rosto. Ele estava ficando desesperado.

- Mesmo assim, o senhor pode gastar só o que puder pagar. Com a gente você não vai estar precisando de comprovante de renda.

A galera do telemarketing não sabe quando deve estar desistindo. Eu também não.

- Fernando, acho que você não está entendendo. Eu não tenho dinheiro. Você quer me empurrar essa droga desse cartão para que eu gaste o que não posso, cara. Você quer me ver afundado em dívidas, não quer? Você quer me levar à ruína, é isso que você quer, Fernando. Você quer me ver lá no fundo do poço e me jogar uma pá para eu cavar mais um pouquinho. Você quer atender às minhas ligações desesperadas de pedido de empréstimo e dizer que eu devo aguardar enquanto você passa para o pessoal da burocracia. Mas você não vai passar para o pessoal da burocracia, você vai é dar corda na sua caixinha de música e colocá-la na boca do telefone e aproveitar cada segundo, por que você quer mais é que eu me dane. É isso que você quer, Fernando, eu sei que é.

- Senhor Renato, eu vou estar deixando o telefone de contato com o senhor para que o senhor possa estar retornando quando o senhor estiver decidido, senhor Renato. Obrigado pela paciência, tenha um bom dia.

- É. A casa do caralho agradece a sua ligação.

Da próxima vez eu vou me fingir de louco, já criei todo o texto. Eles que estejam me aguardando.

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Contemple o "feliz ano-novo" mais atrasado de 2009:

Feliz ano-novo.

Que 2009 seja um ano cheio de assunto. Coisas ruins acontecerão, é claro. Mas vale a pena quando a gente pode contar depois no bar e arrancar gargalhadas. Espero que as coisas ruins deste ano que chegou sejam do tipo que rende assunto a todos nós. Feliz 2009.

4 comentários:

Luiz Nihil

22 de janeiro de 2009 02:07

Feliz dois mil e nove.

Juciellen

24 de janeiro de 2009 23:19

Feliz dois mil e nove. [2]

Que assim seja cheio de assuntos =D

Daniel Araujo

25 de janeiro de 2009 01:42

É sempre um prazer passar por aqui, meu rapaz. =)
Espero ler muito material seu em 2009.
'\o/'
Aquele abraço!

Anônimo

25 de janeiro de 2009 19:43

você foi enganado.

E Feliz Dois mil e... Nove(?)




Bianca