Três vezes por semana eu ando pelas ruas à noite todo vestido de preto. Não, não tenho nada a ver com metal ou satã. É o meu kimono. Poucas pessoas por aqui sabem que o kimono do ninjutsu é preto, mas eu já me considero sortudo quando eu digo ninjutsu e não recebo um "ah, jiu-jitsu?" como resposta. Pior ainda é quando vem "ah, jiu-jípson?", juro que já ouvi.
Eu estava andando com a calça do kimono e uma camisa preta e resolvi não me dar o trabalho de explicar ao homem que me abordava que não, não existe "jiu-jípson". Resolvi escutar tudo o que ele tinha para dizer. Resolvi aceitar mais esta chance que a vida me dava de escrever.
- Você conhece Jesus? - perguntou o homem de terno. Eles sempre serão homens de terno, mesmo quando não estiverem de terno.
- Claro que conheço. - respondeu o rapaz de preto. Essa juventude...
- Conhece mesmo? Diga, quem é Jesus?
- Ora, é o mano da cruz. - antecipei. Eu não conseguia segurar. "Por essa ele não esperava", pensava eu, rindo por dentro. Mas ele se recompôs rapidamente.
- Não, não. Ele é o filho de Deus.
- Tô ligado. Jesus é massa.
Foi nesse momento que ele chegou à conclusão de que para fazer sua boa ação cristã do dia ele não poderia deixar o cara de preto falar. Em poucos segundos traçou um paralelo de Jesus aos nossos tempos, aos jovens dos nossos tempos, a mim. Ou pelo menos a quem ele achou que eu fosse; ao cara de preto. Mostrou como eram ruins os hábitos desse cara que vai às festas, toma todas, se droga e transa com "mulheres do mundo" o tempo todo, o que segundo ele batia de frente com tudo o que Jesus representa e não valia nem um pouco a pena. Na igreja, o rapaz de preto encontraria muito mais felicidade do que no mundo. Com essas palavras.
Eu supus, como qualquer pessoa que não pertence à Igreja Evangélica do Terno deveria, que essa igreja não era o lugar para mim. Afinal, não conheço ainda lugares habitáveis fora do mundo.
- Mas, cara, eu me amarro no mundo. - interrompi com um sorriso.
Eu me amarro no mundo. Eu me amarro nas festas, no álcool e nas mulheres. Eu me amarro no esporte que me faz andar de preto por aí, e me amarro, não posso esconder, em incomodar os membros da igreja do terno. Eu odeio a Igreja do Terno e isso não faz de mim uma má pessoa. Porque para mim não importa se o mano da cruz era filho de Deus, ou de Beus, ou simplesmente um homem que morreu lutando pelo que acreditava. De qualquer modo, Jesus tem meu respeito e admiração, e eu tenho certeza de que não preciso sair de casa aos domingos de manhã para ser uma boa pessoa como ele gostaria que eu fosse.
Se o mano da cruz estivesse vivo, eu posso apostar que ele estaria comigo. Contra a Igreja do Preconceito.
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Comecei a escrever sobre a Igreja do Terno em fevereiro e terminei em março. O sistema do Blogger me salvou de deixar o mês passado registrado como vazio, e eu agradeço. Obrigado, Blogger.

4 comentários:
11 de março de 2009 18:26
Blogger diz: De nada.
14 de março de 2009 04:34
Tudo isso, já disse, é culpa de uma sociedade judaico-cristão ocidental.
Mantenho a posição!
1 de maio de 2009 00:52
Alguém poderia atualizar o blog de vez em quando né...
15 de maio de 2009 22:47
Muito bom!
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