A máquina

Existem vários tipos de orgasmo fora o sexual. São prazeres tão diferentes mas quase igualmente satisfatórios. Um exemplo fácil é o orgasmo gastronômico, que é ainda mais difícil de se obter várias vezes com a mesma comida. Aquele mais delicioso filé ao molho madeira, acompanhado de arroz piamontese, bacon e a melhor cerveja da região; a sobremesa mais cara, logo após um longo rodízio de churrasco, que vale cada centavo; o primeiro capuccino com chocolate, doce como todos deveriam ser. O orgasmo gastronômico se aproxima do sexual em um fator importante: pode denunciar sua sexualidade dependendo do que o causa. Cuidado com o petit gateau. Eu poderia ficar enumerando orgasmos psicológicos aqui, como o saudoso, o bucólico, o artístico ou o secreto, mas vou pular para o importante. O orgasmo cultural.

Voltei recentemente de uma viagem a Salvador e estou com dificuldades para organizar os pensamentos. Não só porque eu estava conhecendo um lugar que às vezes parece outro país, ou porque escutei todas as conversas de gringos que acham que ninguém os entende, ou porque andei de táxi o tempo todo, e táxi é igual a ônibus, só que sem os passageiros e com um motorista que compensa a falta deles. Não foi isso que fez meus neurônios ejacularem. Foi o fato de que eu não tive tempo para anotar nada.

Eu vi todas as casas em que a Ivete Sangalo mora. Volta e meia um taxista dizia "mora nesse prédio aí, a Ivete", e nenhum prédio se repetiu. Aparentemente ela tem uma casa de campo e uma de praia. E outra de praia. E uma de centro, e uma perto da padaria, e outra que é pertinho da farmácia. E, juntando informações de diferentes motoristas, uma que é vizinha de Gal Costa. As reuniões de condomínio devem ser demais.

Eu conheci uma empresa chamada "Criativa" que tinha como slogan "famosa pela criatividade", e logo depois também uma funerária de mesmo nome. Funerária Criativa. Não pergunte.

Notei que em Salvador os baianos não são tão baianos. Nada de "oxente", "meu rei", "painho" ou aquele sotaque geral que é o cão. O que só deixa dois lugares que eu conheço onde os baianos falam de maneira irritante: Teixeira de Freitas (BA) e Vila Velha (ES). Eles devem fazer de propósito.

Além dos pontos turísticos normais, eu conheci o barbeiro do meu pai, a praia do sexo, a única farmácia, as nuvens desenhadas.

E eu vi a máquina.

- Você pode pegar a máquina ali para mim, por favor? - disse a turista gaúcha. E o baiano lhe trouxe a máquina sem pestanejar.

Eu pensava que só aqui no Espírito Santo chamassem câmeras fotográficas de "a máquina". Pensei que só eu tivesse que me irritar com isso. Quando escuto "a máquina", imagino logo um policial matador feito o Riggs de Máquina Mortífera, ou uma metralhadora gigante sei lá por quê. Não uma câmera digital. Ou uma calculadora, ou uma lavadora/secadora de roupas, que são também conhecidas como "a máquina". Quando me pedem a máquina, eu sinceramente não sei o que fazer. É como se uma consciência coletiva soubesse sempre a qual aparelho se referem, uma consciência da qual não faço parte. Até onde eu sei, todo mundo pode estar pedindo uma máquina de datilografia.

--------//--------

Já faz um tempo que não se fala em mais nada além do Twitter. E eu achando a maior bobagem. Quer dizer, parece ótimo para transmissão de notícias, mas daí a cada usuário da internet ficar informando que vai tomar um banho, comer lasanha ou dormir, com qual pijama, em qual quarto, risadinha no final, já é outra história. Corta aqui, já volto a este ponto.

Dia desses eu estava olhando para todos os rascunhos do meu blog. Várias idéias que eu tive nos últimos três anos, idéias que eu achei que dariam ótimas crônicas, mas acabaram não indo para a frente. Eu adoraria utilizá-las, e poderia até publicá-las como estão, pouco desenvolvidas, mas isso só as destacaria negativamente. Foi aí que me lembrei do passarinho azul.

As minhas idéias diárias que são eliminadas podem não ser lá muito brilhantes, mas creio que sejam melhores que "vou escovar os dentes". Você pode vê-las clicando nas maiúsculas entre parêteses (CACA DIÁRIA NO TWITTER), mas encare a página como uma pequena extensão disto aqui.

--------//--------

Agora vou escovar os dentes.

3 comentários:

Vitoria Esewer

19 de outubro de 2009 12:17

Eu chamo tudo de máquina, qual o problema? rsrsrs

=)

Juciellen

23 de outubro de 2009 01:20

No Paraná também se diz máquina para camera. O que me irrita mais nao é chamarem câmera de máquina, mas chamarem a câmara de "câmera dos vereadores" ç__ç

Brenda

25 de outubro de 2009 23:19

Aqui em Minas também se diz máquina - é estranho, até, quando alguém diz câmera :S


kkkk realmente a maioria dos Twitters traz esse tipo de informação inútil sobre 'what are you doing?', tanto é que até hoje só achei um que era interessante :~
enfim, vou passar a acompanhar suas idéias diárias eliminadas ;)