- Eu estou sóbrio há seis meses.
Palmas.
Nós estávamos em pé em um círculo e a palavra era minha no momento. Não resisti e fiz uma piada com a triste verdade: venho há seis meses tomando um medicamento que me obriga a escolher entre ingerir álcool e ter um fígado. Você só sente a importância das coisas quando elas são tomadas de você, e eu mal posso esperar para "voltar". Já me prometeram duas noites pela conta, uma grade de cerveja e uma garrafa de vodca importada para a minha volta, e eu quero gastar tudo em um dia só. É, duas noites em um dia só, você leu certo. Hoje, entretanto, eu li uma notícia revoltante.
Cada vez mais órgãos de saúde ao redor do mundo se preocupam com a saúde de um mundo cada vez maior de órgãos, e isso tudo está culminando agora em uma reprovação em massa ao consumo de álcool. Há propostas de aumento do preço para simplesmente desestimular as pessoas a beber, porque aparentemente o "beba com moderação" não basta mais para pessoas adultas pesarem suas escolhas. Li que os russos já estão se revoltando. Os russos, sempre na contramão.
Eu fui meio russo quando minha família descobriu que eu fumava. Vale ressaltar que nunca escondi, apenas não acreditei que valesse ressaltar. Foi com uma caricata incredulidade que minha mãe gritou: "Mas você está indo na contramão!" A lei anti-fumo era tudo o que se falava naqueles dias, e foram meses e meses recebendo broncas de todos os lados. Houve até uma amiga que brigou comigo depois que eu já havia parado de fumar. Eu a lembrava a cada cinco minutos de conversa que já não mais "estragava os pulmões" com um "por que é que você está me esculhambando mesmo?" e ela não sabia dizer ao certo. Eu não era mais o Renato que as pessoas conheciam, porque uma mortalha queimando no canto da boca parecia fazer a maior diferença. E para o mundo, os fumantes eram de repente vistos como a única fonte de poluentes e substâncias cancerígenas para a atmosfera dos passivos. Não fumar em ambientes fechados está corretíssimo, mas deveria bastar para tirar o rótulo de vilão.
Mesmo adotando o meu ponto de vista convenientemente simplista para defender o livre uso do tabaco, não posso deixar de achar um pouco divertido o modo como parei de fumar. Minha mãe passou um bom tempo tentando me convencer a dar um fim ao hábito, mas eu sou difícil de derrubar com argumentos. Ela precisou pensar muito para se lembrar de uma fraqueza minha: o meu respeito aos médicos que me atendem. Não, não é tão simples como "Renato, o doutor fulano com certeza seria contra você fumar". Eu já aprendi há muito tempo a lidar com meus pontos fracos, principalmente aqueles relacionados às minhas próprias regras morais e de conduta. É muito fácil se esquivar dos próprios valores. Nesse caso, bastaria não perguntar ao médico o que ele acha - sem ordens médicas, não há o que seguir. A arma encontrada pela minha mãe, entretanto, ia muito além disso. Era preciso um conhecimento psicológico muito íntimo para prever o resultado de:
- Você tem aquele problema na garganta.
Eu soube naquele momento que havia perdido. Eu tenho um problema na garganta, e cigarro obviamente faz mal a esse órgão. Poderiam relacionar-se os dois problemas, causando uma combinação fatal? A resposta era simples de obter e, apesar de que provavelmente seria negativa, o resultado era claramente desfavorável para mim. O médico saberia do meu hábito e ordenaria que eu lhe pusesse um fim.
Meu tratamento está quase acabando e eu vou me juntar aos russos. E, conhecendo a mim mesmo, acredito que não vá demorar muito até eu distorcer meus valores a ponto de voltar a fumar. Viver mata. O oxigênio que nos dá fôlego é o mesmo que nos envelhece, matando-nos lentamente. À medida que pesquisas vão sendo concluídas, chegamos cada vez mais perto da verdade: tudo faz mal. Escolher como tratar a própria saúde é um direito.
--------//--------
Pessoas que não fazem sexo vivem em geral treze anos a mais que as outras. Quero só ver quem é que não vai ser russo nessa hora.
