As bochechas de Augustine

- Você vai escrever, não é?

- Claro. Foi divertido.

- Só não revele o meu nome.

Eu tenho um amigo meio tímido. E não, não vou revelar o nome dele. É até melhor para mim porque ele não vai poder desmentir exageros da minha parte, exageros que certamente farei porém sem querer, juro. Estávamos em três voltando de Guarapari, onde supostamente veríamos casas para alugar no carnaval mas acabamos nos distraindo na praia. Era pouco depois das duas da tarde e esse meu amigo, ao volante, ia contando um caso que aconteceu com a família dele.

- Um dia meu tio mandou uma carta pra todo mundo. Disse que estava se casando e queria cem reais de cada um como presente. Assim, de repente.

- Prático, né? - disse eu - Aquele negócio de lista de presentes de casamento é um saco. Nunca vi ninguém conseguir pegar a torradeira.

- Ninguém bota torradeira na lista, Renato.

- Mas isso não vem ao caso, - retomou meu amigo que prefere não ter seu nome revelado - o negócio é que esse cara nem tinha contato com a família há anos. E do nada ele aparece com esse casamento e quer cem reais de cada um? Todo mundo ficou pensando que era algum tipo de golpe.

- É, dá para tirar uma grana assim. Sendo o cara sumido mesmo, era só sumir de novo depois.

Houve um pequeno tempo de silêncio até que eu terminasse de pensar em como me divertir com essa história. Esse meu amigo que estava dirigindo fica facilmente constrangido, não importa se está em um palco ou sozinho no quarto, e eu costumo aproveitar todas as oportunidades que tenho de colocar na mente dele uma situação embaraçosa. E ele sabe que eu estou sempre brincando com minhas idéias ridículas, mas isso nunca o impede de ficar alterado.

- A gente podia fazer algo do tipo. - disse eu - Um de vocês se veste de mulher, eu o apresento à minha família como minha noiva Augustine e nós tiramos uma grana preta e dividimos. O que vocês acham? A gente pode até fingir uma vida conjugal por um mês e "divorciar-se" e a Augustine some, assim ninguém ficará sabendo do golpe.

- Augustine?!

- É. Mas agora, qual de vocês fará o papel? Você, - apontei para a vítima da minha brincadeira - você tem mais cara de mulher.

- Do que você tá falando? - ele estava claramente chocado - Você é que tem!

- E por que seria isso?

- Você tem... Você tem... Olhos de mulher.

- Você nem olhou para mim antes de dizer isso. Tá inventando. Mas você tem... Você tem... Essas suas bochechas femininas. Levemente rosadas. Não é, Lauro?

Calma. Lauro era o terceiro, no banco de trás, não pediu segredo sobre seu nome.

- Eu não sei de nada - respondeu Lauro, rindo.

- Você é mais feminino que eu, Renato, você sabe disso!

- O que você me diz, Lauro?

- Já disse, eu não sei de nada.

- Vamos fazer o seguinte, então. - comecei, lentamente - Eu vou provar que você é mais apropriado para se vestir de mulher, e Lauro vai ser o juiz.

- Como?

- Neste final de semana meus pais viajam. Eu vou levar vocês dois lá e nós vamos nos vestir de mulher. Quem ficar mais parecido com uma é o nosso perdedor.

- O quê?!

- É. Bota um vestido e tal, e aí vamos ver que combina mais. Mas você vai ter que caprichar, hein? Eu acho que você vai ficar linda de vermelho.

Lauro ria lá atrás, dizendo que nós éramos loucos.

- Quando? - surpreendeu-me meu amigo secreto. Ele estava aceitando o desafio! Isso seria divertidíssimo.

- Sábado. Eu vou comprar meu vestido na quinta.

E nós discutíamos os detalhes do desafio, Lauro rindo, eu com o máximo de seriedade que se podia aparentar na situação, e o nosso amigo visivelmente preocupado em defender sua masculinidade. Foi quando o carro bateu.

Devo ressaltar que não foi culpa minha. Sim, eu o estava incomodando, mas nem reflexos divinos nos salvariam do meio daquele acidente envolvendo cinco carros. Meus óculos de sol voaram até o pára-brisas, ricochetearam, foram bater novamente na parte traseira e voltaram para debaixo do meu banco, mas ninguém se machucou falando sobre travestir-se. O que teria sido tragicamente engraçado.

Mas depois de minutos tão divertidos, estávamos condenados a um fim de dia terrivelmente enfadonho. Na beira da estrada, discutindo culpas, esperando a polícia, prestando depoimentos. Era o meu quinto acidente, eu já sabia o tédio que seria, e aproveitei para explicar a todo mundo como proceder para correr tudo mais rápido.

Não, eu nunca bati o carro assim, eu estava no banco de carona todas as vezes, OK? E não, eu não estava importunando os motoristas, tá legal?

Eu fui meio que salvo do tédio porque podia contar as histórias de batidas para as pessoas, fazer algumas piadas com o acontecido e divertir-me em segredo com as situações das pessoas envolvidas - como o cara cujo interior do carro despencou da lataria e o outro que achava que nossa juventude ia permitir que o nosso seguro pagasse todo o prejuízo dele -, e além disso eu tinha um compromisso em Vila Velha e as pessoas ficaram me ligando, lembrando-me de novos assuntos que eu poderia usar para passar o tempo. Eu fiquei vários minutos contando a história de como ganhei uma partida de mentira com nove quatros na mão, sem roubar, só na habilidade. Ninguém acreditava, mas é a verdade. Eu percebera que havia um quatro sobrando, e fiz uma jogada ruim com quatros só para trazer todos para a minha mão. Genial.

Eu contava a história do baralho quando o pai do meu amigo chegou. O filho dele o havia contatado para resolver a questão do seguro - só para o próprio carro, é claro - e ele veio fazer companhia e orientar. Era o fim da minha piada que acabava de chegar.

- Vem cá, o seu pai já sabe dos seus planos de se vestir de mulher?

--------//--------

Meu amigo Gabrielzinho diz que eu sou incapaz de sentir vergonha.

6 comentários:

Lauro

3 de março de 2010 09:47

Citam meu nome em vão.

Gabriel

3 de março de 2010 12:28

Meu nome saiu do nada ali.

eduardo

3 de março de 2010 22:26

Eram nove noves!

Renato

3 de março de 2010 22:53

ta, desculpa

aparentemente isso serve pros 3 rsrs

Míope sem óculos

5 de março de 2010 17:23

kkk (Ku-Klux-Klan) [piada by Eduardo]

Incrível como vc retratou fielmente o Lauro!

e, essa superou aqule dia do estúdio, chuvendo, perdidos...

Vitoria Esewer

8 de março de 2010 11:56

haeuhauheuahea

por isso q eu não pego carona com vcs