Impermeável

Renato diz: Olha, eu não vou poder fazer aquele relatório de física experimental hoje. Vou ficar te devendo essa.

Gabrielzinho diz: Como assim? É a sua semana!

Renato: Eu faço duas semanas seguidas depois, cara, eu realmente não posso fazer isso hoje.

Gabrielzinho diz: Por quê?

Renato diz: Bom... Resumindo... O The Rock me acordou às três horas da tarde para ir até a ilha procurar larvas de libélula com ele e quando nós voltamos estava escuro e eu perdi as minhas roupas e a chave de casa.

Gabrielzinho diz: E você espera que eu acredite nisso?

Eu não devia ter resumido. Ainda mais no MSN messenger, que diminui qualquer discurso.

Gabrielzinho diz: Pensando bem, tratando-se de você é bem capaz de ser verdade.

The Rock é um amigo meu que não é exatamente o Dwayne Johnson, mas é a cara dele. Ele faz biologia, e certa vez quando nos encontramos em uma festa me disse "Ei, vou colher umas larvas de libélula amanhã às três horas em uma ilha na Praia da Costa para um trabalho da faculdade. Você podia ir comigo, né?" porque sabe que eu adoro programas aleatórios e diferentes, e eu disse que sim, logicamente, porque adoro programas aleatórios e diferentes.

Às três horas eu acordo no meu sofá, perguntando-me:
Primeiro: Por que estou no sofá? Eu nunca durmo no sofá;
Segundo: Cadê minha família? Este sofá é o lugar favorito deles;
Terceiro: Quem está me ligando na manhã seguinte a uma festa? Pensando que não passava das dez;
Quarto: Caramba, que dor de cabeça. O que não é exatamente uma pergunta.

- Alô?

- E aí? Pronto pra ir à ilha?

- ...

Eu estava ainda lembrando da noite anterior, de ter chegado na hora em que minha família saia em uma viagem de dois dias e desabado no sofá porque estava com sono demais para tomar banho mas sóbrio o suficiente para não esquecer que eu não durmo na minha cama sem banho. Mas ei, vinte minutos de nado até uma ilha com um velho amigo? Por que não? Podia até fazer bem para a ressaca.

Ah, sim, eu sou um puto animado.

Vesti uma sunga, uma bermuda e uma camiseta, coloquei as chaves no bolso e fui à praia. The Rock chegou com várias sacolas e potes esterilizados e pinças e materiais de cientista sério e um pacote impermeável para aguentar tudo durante o trajeto que percorreríamos a nado. Coloquei minhas coisas junto, roupa e chave, e fomos à ilha.

O Rock está sendo orientado por uma professora que é especializada em larvas de libélula. Isso mesmo, não libélulas, mas larvas de libélulas. São uns bichinhos minúsculos que crescem em água meio parada, que abunda nas ilhotas da Praia da Costa. Eu perguntei a ele o que as larvas de libélula têm de interessante. Não consigo me lembrar da resposta. Mas eu lembro que fiquei impressionado com a quantidade de bichinhos que encontramos naquelas pocilgas de água do mar. Sem contar as plantas das poças, que meu amigo disse que tinham ainda muito mais antes de cortá-las e colocá-las nos enormes sacos de lixo que trouxera, para estudar em casa ao microscópio. Eu me lembro de lembrar. Que quando criança eu adorava brincar naquelas poças.

Por volta das sete horas o hemisfério escureceu e não havia mais como dar continuidade às pesquisas. Colocamos os equipamentos no pacote impermeável e tomamos nosso caminho de volta.

Como havia muita coisa para carregar, nós jogávamos as sacolas para a frente e nadávamos até elas, para jogá-las novamente e assim por diante até a praia. Em uma dessas, aconteceu. O pacote impermeável abriu no meio do ar. Foi tudo muito rápido. Nós mergulhamos várias vezes, mas lamentamos não conseguir recuperar as roupas e a pinça que o Rock comprou no mercado livre. Estava escuro demais, e já seria praticamente impossível mesmo de dia, então deixamos para lá e seguimos nosso caminho. Eu nem gostava muito daquela camiseta mesmo.

Sem deixar de apontar que nós parecíamos muito suspeitos saindo do mar naquela praia deserta carregando sacos pretos enormes no meio da noite, despedi-me do meu amigo e fui para casa. Para lembrar na porta que a chave também estava no pacote.

Devo separar aqui Gabrielzinho dos irmãos Gabriel, já que a partir de agora todos os três fazem parte da história. Eduardo Gabriel e Gabriel Gabriel cresceram comigo e são há tempos parte da família. Nessas horas eu fico feliz em poder considerar-me parte da família deles também.

- Ei, Gabriel. -disse eu no telefone - Eu estou com umas dificuldadess aqui e vou ter que passar a noite na sua casa. Tem problema?

Eram nove da noite quando cheguei à casa deles. A cidade é tão maior quando se está a pé.

- Por que você está seminu?

- Longa história. Eu preciso de um banho.

E eles riram antes mesmo de ouvir.

1 comentários:

Vitoria Esewer

8 de março de 2010 11:35

ai Renato, só vc mesmo... To tendo uma crise de riso aki no meio do laboratório e tenho certeza q os dois caras do meu lado acham q eu sou doida

=)