Eu mencionei o clube uma vez. O clube. É assim que o chamamos porque ele é meio difícil de definir. Com uma palavra legal, pelo menos.
- Então, vamos estabelecer algumas regras. Primeiro, eu acho que qualquer membro novo tem que ser aceito por todo o clube para entrar. Todos de acordo?
- Espera aí. - surpreendeu-me Pedro - Como assim "tem"?
- É um verbo que exprime necessidade.
- Mas não é mandatório que essa regra seja estabelecida assim. - o Pedro consegue ser chato quando quer.
- Não, por isso eu disse que acho. Acho que membros novos devem ser totalmente aceitos para fazer parte das nossas reuniões.
- Quando você fala assim, parece que é uma obrigação. Não é. Não é necessário estabelecer regras assim.
- Vou mudar então. Hum... Acredito que seja adequado entrarmos em acordo quanto a algumas questões que concernem o clube. O ingresso de novos membros, por exemplo, pode acarretar em uma série de problemas, dada a natureza das nossas reuniões, e deve portanto ser analisado com cuidado. Sugiro que estabeleçamos a aceitação unânime como pré-requisito. Melhor agora?
O clube surgiu num dia em que eu me deparei com um de meus recados noturnos. O adesivo na porta dizia "clube da roleta" e eu me lembrei imediatamente. A idéia seria colocar em alguma forma de sorteio várias opções de atividades inusitadas, de modo a evitar dias de tédio. Você gira a roleta e aparece algo divertido que você nunca fez e pronto, programa garantido. Como tudo fica mais divertido em grupo, resolvi levar a idéia a alguns amigos.
Nós acabamos decidindo por um método diferente de seleção. Cada um ia apresentando sua idéia de programa até que uma fosse aceita por todos. Só não valia algo que já tivéssemos feito.
A teoria mais aceita é que não estávamos pensando direito ao respondermos todos que sim quando Filipe disse: "A gente vai a uma lanchonete e pede cinco leites."
- Cinco leites, por favor. - disse Filipe com uma cara de sério que só ele sabe fazer.
- Como?
- Cinco copos de leite.
- Nós não temos leite.
- Como assim? - perguntei, levantando o cardápio - Como é que vocês fazem o milk-shake?
- Espera um minuto que eu vou perguntar para o gerente - respondeu o garçom.
- Olha, eu gostei de perguntar sobre o milk-shake, mas o fato é que estou me sentindo meio desconfortável. Isso é ridículo.
- Você tem que enxergar as coisas de outra forma. - disse Pedro - Olha só, no mínimo nós estamos tornando o dia do pessoal da lanchonete menos tedioso. Imagina só o que eles devem estar falando da gente agora. É um evento diferente.
- Eles podem estar só dizendo "Um bando de engraçadinhos fazendo"... hum ... "graça".
- Não enquanto Filipe estiver aqui.
O garçom voltou, dizendo:
- Tem leite, sim, mas não está gelado.
- Não tem importãncia.
- OK. Cinco copos de leite, então. Mais alguma coisa?
- Não, só o leite. Obrigado.
- E um saco de vômito, né? - disse Gabriel Gabriel quando o garçom saiu. - Eu não vou tomar esse negócio.
- Então por que concordou com a idéia?
- É só você colocar açúcar. - sugeriu Eduardo Gabriel - Olha aqui, tem vários saquinhos na mesa.
- Açúcar no leite? - perguntei. Nunca havia ouvido falar - Você tá brincando, né?
- Não. É bom.
- Ele tá brincando, né?
- Não, é bom.
- Eu não vou tomar. - insistiu Gabriel, e o garçom apareceu com os copos.
- Vamos virar? - sugeri. Eu nunca havia tomado leite puro quente, mas sabia que não devia ser pior do que cachaça com sal. - Um, dois, três, e... Caraca, isso é pior que cachaça com sal!
- Me dá isso aqui. - disse Eduardo, pegando o copo do irmão. O moleque tomou os dois copos e nós ainda estávamos juntando coragem para o segundo gole. - E aí, galera, vamos pedir uns x-egg agora?
- Argh!
Na falta do que fazer, fique sem fazer nada.
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Estranhamente, essa primeira reunião do clube não foi a última.

6 comentários:
17 de março de 2010 02:03
Pelo menos o leite foi absurdamente barato ( o cara inventou um preço na hora ), adiciona um "na falta de dinheiro tome leite".
18 de março de 2010 11:21
HUuhuhahua, quantas vezes eu já não contei essa história... Como eu tenho orgulho dessa turma de machões que eu faço parte! o/
ps: Leia meu novo post!
pps: Você se esqueceu da parte em que eu saí com pedro pra comprar biscoitos huauhauhahu.
18 de março de 2010 20:26
Leite com açúcar é a coisa mais natural do mundo, nao é? Oo
19 de março de 2010 11:52
você me decepcionou não fazendo aquela parada da igreja.
22 de março de 2010 10:20
Leite com açucar é horrível!!!
Agora, leite puro... Seja quente ou frio... Delícia (acho q vou tomar um copo agora)
=)
25 de março de 2010 15:55
Renato,
Vc não me conhece, mas sou amigo de seu Pai, e tb dou aulas na UVV. Escrevi o livro "Pequeno Discurso Sobre a Feiura" (seu pai tem o livro), e gostei muito desta sua crônica. E pelos comentários postados vi que o que é narrado aconteceu mesmo, o que achei demais! Parabéns pela boa narrativa da crônica! Aos poucos vou ler outras coisas do blog!
Antonio Rocha Neto
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