O genial esquema de anotações

Eu detesto dormir, mas devo admitir que o sono é um momento mágico. Não sei, entretanto, se é com todos. Comigo sonambulismo, sonhos lúcidos e paralisia do sono juntam-se para garantir que cada noite seja uma surpresa. Muitas vezes eu acordo antes da hora cheio de idéias que vou esquecer no dia seguinte. E eu não esqueço apenas as idéias, mas tudo o que acontece enquanto estou no estado zumbificado de entressonos. Eu dependo, portanto, das anotações que faço no meio da noite e colo pelo quarto para ver de manhã.

Hoje eu encontrei sobre a minha mesa um recado enigmático. Com a minha letra.

"Frio
Camisa
Calor
Miojo
Água"

Eu sei que, quando escrevo tópicos assim, trata-se de uma idéia de texto. Costumo colocar os itens em uma ordem lógica para não me esquecer de como uma coisa leva à outra, e dessa forma reconstruir o pensamento no dia seguinte.

"OK", pensei, "Eu acordo com frio de noite e me levanto para colocar uma camisa. Tudo bem até agora. Mas e o calor? Talvez eu tenha refletido sobre como senti calor o dia todo e agora passava frio, e em como isso era irônico, transformando este no ponto central do raciocínio. Não, isso não faria sentido, é uma idéia idiota demais para ser anotada. Além disso, não há ligação alguma com o miojo."

Eu tinha um quebra-cabeças para resolver. Eu adoro quebra-cabeçases. Que é o plurais de quebra-cabeças que eu inventei. Eu inventei "plurais" também.

"Já sei, vou partir do miojo, que ainda não encaixou. Miojo é quente - e, aliás, demora pacas para esfriar e é impossível tomá-lo escaldante daquela forma, mas sem a água o tempero fica seco e grudento, o que faz com que eu me pergunte como diabos um alimento tão incômodo se tornou um elemento tão importante na minha dieta -. Miojo, calor e água, juntos, eu sou genial. Agora é só juntar as outras partes:

'Acordo com frio, boto uma camisa. A camisa me esquenta, como faz a água com o miojo.'

..."

Eu não queria continuar nessa linha de raciocínio. Ela não fazia sentido. Mas eu não podia abandonar meus escritos. O meu eu da noite passada tentava me dizer alguma coisa, e eu ia descobrir o que era a todo custo.

Desliguei o ventilador. Calor. A pista central do recado, disso eu tinha certeza.

"Calor, calor..."

Incrível como dois segundos sem ventilador tornavam a vida insuportável. A temperatura por aqui tem atingido níveis tão absurdos que eu estou decidido a comprar um ar condicionado para o meu quarto. Ar condicionado faz o meu nariz sangrar, mas eu já não me importo mais. Definitivamente, calor era o ponto central. E de repente a resposta me atingiu. O calor insuportável em todos os horários menos de manhã cedo, quando acordo seminu, sem proteção alguma contra o frio matinal. Problema que poderia ser contornado se eu usasse roupas para dormir. Mas eu não podia vestir a camisa. Eu estava morrendo de calor, e o miojo quente que eu acabara de tomar não ajudava nem um pouco. Por que eu insistia em tomar o miojo quente? Porque ele não esfria enquanto não estiver completamente seco.

E foi aí que eu percebi.

Que perda de tempo.

1 comentários:

Vitoria Esewer

16 de março de 2010 16:25

ahuehauheuaheuaha

eu faço isso tb, de anotar as coisas de noite pra escrever no dia seguinte...

e eu já resolvi em sonho um exercício de calculo I, mas isso eh outra historia