Ônibus... e as gerações

Dois anos e meio. Não é uma data adequada para uma comemoração. Mas foi hoje que eu decidi ler todos os meus rascunhos. Ao longo desses dois anos e meio eu escrevi muita coisa, e é claro que não publiquei tudo. Guardando um texto aqui e outro ali eu sem perceber criei um enorme acervo de histórias que por tempos ficaram sem ver a luz do dia. E algumas me fazem perguntar "por quê?". Há algumas tratando de ônibus, um "Projeto de..." que eu acho divertido, um texto com título de número - e eu adoro títulos de número por alguma razão misteriosa - e vários outros que podem, sim, valer a pena. Por que não?

Muitos leitores dizem que meus trabalhos antigos são mais divertidos. Aí vai um de 2008. Ligeiramente alterado, é claro, assim eu posso argumentar. Haha.

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A viagem do passageiro habitual é uma viagem solitária. Mãe e filhos indo ao dentista não são passageiros habituais. Grupos de alunos do ensino médio (em cinco geralmente, quatro sentados e um em pé, sendo que um dos sentados gosta de ocupar dois assentos e ficar sozinho virado para seus colegas conversando alto) que reclamam por levarem quase meia hora para chegarem em casa não são passageiros habituais. Não na minha conta. Nós, os passageiros habituais, estamos sempre sozinhos. Aliás, quanto maior a distância a ser percorrida, menor a probabilidade de encontrar um conhecido na condução.

O passageiro habitual costuma ouvir música no seu aparelho de eme-pê-algum-número ou ler um livro, ou observar os outros passageiros que ou ouvem alguma música no seu aparelho de eme-pê-algum-número ou lêem um livro ou não são passageiros habituais. Mas não que ele queira. Porque ah, como seria bom ter companhia. No entanto, puxar assunto com desconhecidos no ônibus é geralmente uma tarefa difícil, tendo em vista que tudo que ocorre de interessante (ou seja, todos os possíveis tópicos) envolve os outros passageiros, que vão ouvir tudo o que você disser sobre eles. Qual a salvação do passageiro habitual? A terceira idade. Muitos idosos não têm medo de falar o que pensam, e muito menos de tentar conversar com os outros a respeito de algo que pode não lhes interessar nem um pouco. Nem se esquivam de intromissões nos seus assuntos, até onde pude perceber. Bom para nós. Ou para mim, pelo menos.

- Nossa, como é bonito aquele prédio! - dizia uma senhora apontando para um edifício pelo qual passava o ônibus. Minha morada, incrível coincidência.

- Um apartamento lá deve valer mais de setecentos mil. - dizia um senhor.

- Não, não, não deve chegar nem perto desse valor. Muito, muito menos. - intrometi-me.

- O quê? Mas de jeito nenhum! Olha o tamanho daquela varanda! Imagina como devem ser grandes os outros cômodos!

- Na verdade, aposto que a varanda é o maior deles. A cozinha pode ser grande também, mas nada de quartos gigantescos. Aposto. - afirmei.

- Besteira! Tenho certeza que os quartos são grandes. E muitos, aliás. Uns seis pelo menos.

- Quatro quartos. Quatro quartos. - concluí.

E os dois pegaram seus livros em silêncio, achando um desperdício conversar com um jovem de idéias tão absurdas. Perdi minha companhia naquele dia por não dizer "Olha, eu moro ali, tá bom? Não vale isso tudo, não tem isso tudo, não é isso tudo, OK? Agora vamos falar sobre outra coisa." Pensando bem, eu a perderia de qualquer modo. Mas das conversas com gerações passadas no ônibus a mais memorável foi com um senhor que mora aqui perto.

Existem três assuntos fáceis para um homem puxar assunto com outro. Carros, futebol e mulheres. Começou com carros. Eu não entendia nada de carros na época.

- Nossa, que carro feio. Olha só. E pior que deve valer uma grana... Mas é feio, hein?

Eu havia achado o carro ótimo. Meio fúnebre, com aquela cor preta e todos aqueles ângulos, mas definitivamente um carro que eu adoraria ter.

- Ah, eu gostei. Não parece muito possante, mas tem um charme.

- Ah, não, veja só -- (trecho excluído deste relato por conter detalhes de conhecimento automobilístico que eu não tinha, portanto, não me lembro) -- aquilo sim é que é carro.

- Hum. - Fiz, enigmático, provocando o silêncio e quiçá a mudança de assunto. E pensando: "Vamos, por favor, tenha um assunto interessante em mente. Esse jornal aí no seu colo não vale de nada. Não vale de... O quê? Coluna de fofocas? Você esta lendo a coluna de fofocas? Mas que diabos? Vire a página, homem! Enfim... espero que esse senhor venha com um assunto melhor que carros. Talvez, sabendo que eu achei interessante o carro feio, ele pense em dizer que..."

- Mas que vergonha o Botafogo ontem, hein?

"Droga", pensei, "era o que eu temia." Primeiro carros, e agora futebol. Eu não entendo nada de futebol. O que é isso, fale logo de mulher!

- Ah, acontece - respondi - Você é botafoguense?

Minha experiência aponta para o uso de "você" no lugar de "o senhor".

- Não, não. Sou flamenguista.

- Xiiii...

Eu não entendo muito de futebol, mas até as minhas tartarugas de estimação sabem que qualquer não-flamenguista deve fazer graça com o flamengo.

- Ah, nem vem! - riu o homem, me fazendo pensar em por que diabos eu estava levando em frente o assunto.

- E aí, quem você acha que vai ganhar o campeonato? - perguntei antes que ele me perguntasse qual era o meu time, e devo acrescentar aqui que não fazia idéia de qual campeonato estava acontecendo no momento.

- Ah, o São Paulo. Com certeza o São Paulo.

Fiz um silêncio proposital de uns dois segundos e declarei, com um sorriso desafiador:

- Será?

O que me garantiu conversa para toda a viagem.

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Nossa, eu não lembro nem os nomes das tartarugas.

2 comentários:

Juciellen

5 de março de 2010 00:35

hsuhauhauhsuasa ótimo o papo sobre o apartamento XD

Conccordo com tudo sobre os passageiros habituais. E digo mais. Passageiro BOM é aquele que vai em silencio respeitando o seu fone de ouvido ou o seu livro.

=}

Vitoria Esewer

8 de março de 2010 11:46

Você esqueceu de falar dos passageiros q, além de ouvirem o MPn, acham q são algum tipo de radio ambulante e colocam o som - provavelmente funk - no viva-voz, pro onibus todo ouvir