Ônibus... e o garoto esnobe

Eu estava no ponto de ônibus com a cabeça de lado virada para o mar, que é de onde vem o vento (estava na hora de cortar o cabelo, aquela hora em que a franja começa a espetar os olhos). Eu fazia esse exercício ridículo porém necessário de concentração quando ouvi a frase.

"Olha, Ana, é aquele garoto esnobe!"

Só havia uma pessoa no ponto. Só havia uma pessoa na calçada. Só havia uma pessoa na rua. Eu era o garoto esnobe, eu, ali encarando o mar. Virei rapidamente para o asfalto e fitei o veículo que passava em frente ao ponto de ônibus. Da janela da perua escolar, uma garota que olhava sorridente para mim voltou para o interior do ônibus num pulo. Eu observei a van sumir no horizonte tão perplexo que meus pensamentos não podem ser colocados entre aspas aqui. Meio-dia e dez, quinta-feira.

Uma vez no terminal, contei o acontecido ao Gabrielzinho e, logicamente, arrependi-me no ato.

- Haha! Esnobe! - que é como ele lembra às vezes de me chamar até hoje, dois anos depois.

- Mas falando sério, você sabe que não tem sentido!

- Tem sim.

- Pelo menos não para duas meninas aleatórias no ponto de ônibus.

- Vai ver elas estão te seguindo.

- Quer saber? Eu vou perguntar a elas. O transporte com certeza vai passar lá na quinta-feira que vem. Ah, por essa elas não esperam!

Meio-dia e dez. E lá vinha a perua. Eu havia, entretanto, falhado em atestar a impossibilidade de estabelecer uma comunicação verbal clara com os passageiros do veículo em movimento, o que me deixou novamente na minha posição esnobe de sempre. As meninas passaram cochichando e eu fiquei sem respostas. Pelo menos não estava ventando.

- Já sei! Eu vou escrever! Quando a perua passar eu mostro o caderno com alguma mensagem curta! Isso vai deixá-las cabreiras. E quem sabe elas me respondem e esclarecem essa história uma semana depois.

- Boa. Você poderia escrever “Olha, é Ana, a menina que fala mais do que devia!” e fazer cara de sério. Botar terror.

- Hum. Eu estava pensando em “Não sou esnobe”, mas eu vou pensar na sua idéia, tá legal?

Terceira semana. Eu havia cortado o cabelo e estava pensando em como era bom sentir o vento e não achar ruim, e em como deveria ser bom fazer um corte novo e não achar ruim, quando o relógio apitou meio-dia e dez. Não que eu estivesse obcecado e programando alarmes e tal. Mas o vento ficava sacaneando o meu caderno e a perua nem passou. Ana: 2; Vento:2; Renato: Zero.

- Haha! Esnobe! E que cabelo é esse? Hahaha!

- Pode falar o que quiser, este corte me deixa muito mais feliz durante todo o tempo em que eu não estou olhando num espelho. Eu nem tenho espelhos em casa mesmo, então pode falar o que quiser.

Eu fiz o dever de casa para a quarta semana. Era a hora da batalha final. Eu estudara a rota do transporte escolar e o aguardei no cruzamento da rua mais movimentada, o que provavelmente me faria parecer algum tipo de maníaco se não fosse a minha cara de mais novo. Perder o ônibus e chegar atrasado na faculdade? Eu não estava nem aí.

A van passou ao meio-dia e doze em ponto e parou no cruzamento. Era agora. Era o veículo certo – modelo, pintura, placa. Caminhei até ele e olhei pela janela. Dentro da perua havia toda sorte de crianças e adolescentes. Que eu nunca havia visto na vida.

O que estava acontecendo? Não havia nenhuma parada entre o ponto de ônibus e o cruzamento. Nenhuma daquelas pessoas jamais estivera na van, eu tinha certeza. Nem o motorista, eu chequei. Por quê? Por quê? A perua atravessou o cruzamento e nunca mais foi vista. Renato: Zero.

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Não sou esnobe.

5 comentários:

Gabriel

8 de março de 2010 23:48

Sempre me perguntei pq vc nunca me contou o q aconteçeu com a ana, agora ta explicado. Esnobe.

Obs: Esqueçeu da parte q eu tentei localizar a van dela no detran, mas como eu falhei entao nao importa mesmo.

Renato

9 de março de 2010 10:14

caraca eu não lembrava disso hahahaha

Vitoria Esewer

9 de março de 2010 15:32

?

estou tendo um deja vu (ou seja la como se escreve isso)

em 8 de março de 2008 vc publicou esse mesmo texto... ou não?

Renato

9 de março de 2010 16:36

Eu tinha feito um rascunho em 2008, e o mostrei a você. Ontem, quando alterei o rascunho (escrevi tudo de novo na verdade, mas sim, a mesma história), o blogger deu um erro e postou nas duas datas. O irado é q eu tava vendo flash forward agora mesmo e o seu comentário me deu um arrepio rsrs
consertado

Vitoria Esewer

10 de março de 2010 15:41

Ok, eu te perdôo rsrsrs