Ontem eu acordei pulando da cama, suando frio. Foi o pesadelo mais realista dos últimos anos: eu sonhei que tinha ido à cozinha tomar um copo d'água, mas ao beber constatei que era Magnopyrol.
A dipirona magnésica é um dos meus principais traumas de infância, logo, uma importante peça na formação da minha personalidade. Como a polenta, por exemplo. Já mencionei em "Projeto de homem" que depois do parquinho e do banho, o que mais me aterrorizava no pré-primário era o almoço. Todos nos sentávamos à enorme mesa de madeira, com o diretor em uma ponta e eu na outra. Isso me faz parecer importante, e logo mais vai ficar claro o motivo. A casa do diretor e a escola eram um só lugar, e o salão (que hoje eu provavelmente veria que é muito menor do que parecia) onde fazíamos nossas refeições ficava no último andar. De segunda a quinta o cardápio variava, e sexta-feira era peixe. Mas independente do prato do dia, também nos era servido polenta com carne moída. Todos os dias. E nós tínhamos que comer tudo antes de descer. Eu detestava polenta e detestava carne moída, portanto faziam-se necessários muito esforço, calma e concentração para encarar o prato. Com ênfase na calma: eu demorava horas para conseguir empurrar a gororoba. Da metade do almoço em diante éramos só eu em uma ponta da mesa e o diretor na outra, sempre descascando uma laranja e certificando-se de que eu estava comendo tudo direitinho. Eu pensava: "Eu sei que a laranja não é a sobremesa. Eu vi todo mundo saindo com uma mariola. Você está aqui para me vigiar", eu me sentia um aluno-problema. A polenta é responsável pela dificuldade que tenho em comer rápido, até hoje. E pelo desconforto em sentar na ponta da mesa, é claro.
E o Magnopyrol? A força do sabor único desse remédio que eu tomava em gotas quando pequeno assombra até hoje o meu subconsciente, concedendo-me o estranho hábito de fingir que não estou doente. Eu hoje tenho alguns problemas de saúde que tratarei com pílulas diárias até o fim da vida, mas não consigo não pensar que qualquer medicamento extra vai fazer muito mal a algum dos meus sentidos.
Febre? Água. Dor de cabeça? Sono. Coriza? Casaco. Fora as mentiras que eu contava para mim mesmo, para realmente acreditar que não estava doente. "Não, não é dor de garganta, é só a sopa quente que você tomou", "presta atenção, essa dor não é no coração, é só o pulmão esquerdo" ou "seu braço não está ficando escuro, é só o sol se pondo". O meu paladar fez de mim uma criança estranha com técnicas de gerrilha para esconder qualquer sintoma. Acho que tenho sorte por estar vivo, levando-se em conta que o meu sistema imunológico nunca foi lá muito forte.
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Hoje eu amo polenta. O paladar saiu da última posição para virar meu segundo sentido favorito (não tem como enjoar da visão) mas eu continuo comendo devagar. Eu digo que é para apreciar mais o sabor.
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Um médico me receitou um remédio milagroso para curar o meu sistema imunológico. Depois de seis meses de tratamento, os resultados foram espetaculares e passei a viver uma vida normal.
Recentemente descobri que o remédio era um placebo. Achei ótimo, adoro placebo. Mas oitenta reais a caixa?!

2 comentários:
5 de março de 2010 17:27
"O paladar saiu da última posição..."
Tá. Essa me surpreendeu muito.
8 de março de 2010 11:50
"A polenta é responsável pela dificuldade que tenho em comer rápido, até hoje."
Agora tudo faz sentido...
"Recentemente descobri que o remédio era um placebo. Achei ótimo, adoro placebo. Mas oitenta reais a caixa?!"
hauheuaheuha
Provavelmente ele é fabricado pelo seu médico
=)
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