Sobre croissants, vinho e cu

Neste domingo eu fui com o Pedro a umas palestras no museu ferroviário com a condição de que ele cantasse a música de Cabaret Mineiro no palco na nossa aula de teatro do dia seguinte. O evento teria figurões como José Celso Martinez Corrêa e José Miguel Wisnik, mas a verdade é que eu fui pela comida.

Eu como diversas vezes ao dia, o que me obriga a fazer alguns lanches caros por falta de opção dependendo de onde eu estiver quando bater a fome. Talvez seja por isso que comida de graça pareça tão mais gostosa na minha boca. Eu não tenho vergonha de dizer, porque eu não como só porque é grátis. Eu como porque tem um gostinho especial. E porque é grátis, também.

- Eu vi, tá? Você molhando o croissant na cobertura do bolo. - disse Pedro. Era o intervalo entre uma palestra e outra.

- Foi sem querer! Mas ficou delicioso. Ei, sabia que a qualidade de um croissant é determinada pela quantidade de camadas que o padeiro consegue colocar sem grudar?

- Interessante. Esse daí tem quantas?

- Não dá para dizer, eu já mordi. Parecem umas oito, sei lá. Peraí que eu vou pegar outro. - terminei de comer o meu croissant e fui pegar um novo. Pela ciência.

- Você molhou no bolo de novo.

- É, mas o bolo agora é seu. Toma. E então, o que você achou da palestra? Ou melhor, tava mais para um debate, né?

- É verdade. Eu achei ótimo, adorei a parte da germanofilia.

- Sim! Foi demais também a definição de natureza que a mulher deu: "sol, luz, dinossauros".

- Hum, este muffin está uma delícia.

A segunda palestra era com o José Celso Martinez e o José Miguel Wisnik, e as expectativas estavam lá em cima. Nós ficamos surpresos quendo um rapaz foi até a mesa deles e serviu vinho. Para os dois e para ele mesmo.

- Eles vieram aqui para se divertir, olha só. Isso vai ser muito bom.

- E qual é a daquele jovem? Quem é ele? Ele tá tomando vinho junto dos caras!

Os Josés começaram cantando uma música de autoria do Wisnik e andaram até o meio do público, ordenando que formássemos com as cadeiras um círculo em volta deles. O vinho, a música, o círculo. A palestra começava cheia de surpresas. Mas eu não fazia idéia.

José Celso falava de uma peça de teatro ousada que fez uma vez quando chamou o rapaz para o centro do círculo. Aquele, o do vinho.

- Você vai fazer?

- Sim, sim. - respondeu o rapaz, e pôs de lado a taça de vinho e plantou bananeira.

O que já seria mais uma surpresa mesmo se o velho não completasse com "Agora alguém venha tirar as calças dele".

- Agora alguém venha tirar as calças dele.

- Ai, eu vou lá! Eu vou lá! - ficou gritando uma moça que estava sentada logo atrás de nós. Mas ela não foi e por fim um artista que estava na primeira fileira aceitou fazê-lo.

- Ei, a calcinha também! - falou José Celso Martinez, e não, ele não estava de calcinha.

O homem tirou a "calcinha" e nós tínhamos agora um rapaz nu de ponta-cabeça na frente de umas mil pessoas. E em todos os telões.

- Câmera! Por que você está aí no canto? Venha cá dar um close! O que foi? Você é evangélico, é? Evangélico não tem cu? - brincou o velho, e continuou a importunar o câmera até que ele chegasse perto.

O que se seguiu foi um festival de situações potencialmente ofensivas envolvendo vinhos, gargantas e dedos que eu prefiro deixar para a imaginação do leitor. Eu não me ofendi nem um pouco, e na verdade até me ofendi com a atitude provinciana de quem se ofendeu, mas devo dizer fui surpreendido a cada segundo. Sempre que eu achava que o velho fosse parar, ele fazia uma coisa nova. E tudo regado a uma música cantada pelo Wisnik.

- Que horror! Como alguém se sujeita a um papel ridículo desse? - reclamou a moça atrás de nós. É, a mesma que queria tirar as calças do rapaz.

- Ei, Pedro, quantas pessoas você acha que estão ofendidas aqui, agora? Em porcentagem.

- Ah, não é pra isso não. Deve haver uma ou duas.

- Você superestima Vitória, meu caro.

E nós ficamos discutindo a reação dos espectadores até que tudo acabou e o rapaz colocou suas roupas e voltou a tomar seu vinho.

- Olha! Ele ficou com as bochecas vermelhas!

- Não o culpo.

Eu saí do museu com um sorriso no rosto. Eu adoro ser surpreendido. E eu adoro croissants.

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Até eu superestimei Vitória. O caso teve uma repercussão enorme e aparentemente os únicos que gostaram fomos eu, Pedro e o nosso professor de teatro. Que não estava lá.

- José Celso, você tem que vir a Vitória mais vezes! - disse Pedro enquanto pegava um autógrafo no final da palestra.

- Só depende de vocês. Evoé!

É, infelizmente ele não vem.

2 comentários:

Míope sem óculos

12 de março de 2010 17:16

E me contaram essa história justo quando eu batia um PF na Lama...

lá eu fiz um teatrinho dizendo que estava com "nojinho" e talz, mas se es estivesse na hora da parada, provavelmente ía achar bizarro/engraçado/corajoso/surpreendente.

Mais surpreendente que: "O paladar saiu da última posição"

Vitoria Esewer

16 de março de 2010 16:20

Po Renato, achei q vc ia descrever a cena com detalhes...

Gabriel(zinho) tinha me contado essa história, dizendo q vc contou pra ele, mas axei q estivesse exagerando... Mas no dia seguinte ouvi um cara atrás de mim contando a mesma história pra uma mulher, e vi q era verdade...

deve ter sido divertido, pena q eu não fui.

p.s.: como essas situações bizarras só acontecem quando vc está presente, se vc não estivesse lá nada disso teria acontecido, e portanto a culpa é sua

=)