Prego

Acabo de voltar de um cruzeiro italiano que passou por alguns países onde nossos "reales" valem ouro e todos os carros são batidos, mas não passei o dia da volta pensando em escrever sobre isso aqui. Porque por mais que tenha sido uma experiência incrível (afinal, eu nunca havia saído do país, ou melhor, do sudeste + Bahia), sua capacidade de gerar uma história curiosa foi ofuscada pelo próprio dia da volta. O dia da ressaca.

Eu peguei uma gripe argentina no meio da viagem e fiquei um dia inteiro de cama, mais um dia de recuperação bebendo só água, o que atrasou um pouco o meu plano de provar todos os drinques internacionais dos diferentes bares do navio. Acabou ficando tudo para o último dia, e todo mundo sabe que isso não podia acabar bem.

Não me lembrando muito bem do que ocorrera na noite, eu olhava para o buffet do navio e não conseguia encontrar nada que não me desse enjôo só de olhar. Comi duas fatias de melancia e aceitei que o dia seria péssimo, mas valia a pena pela ótima semana em águas internacionais. O que eu não sabia, entretanto, era que eu estava vivendo ali a introdução de um episódio de House. Para quem não conhece, House é um seriado que mistura medicina e mistério. O episódio começa com algum sintoma normal, o paciente apresenta complicações confusas, e o time do diagnóstico fica quebrando a cabeça para no final descobrir que era alguma coisa completamente fora do comum, ou a mistura de várias doenças, ou lúpus.

O título de pior ressaca da minha vida só foi merecido no aeroporto. Depois de comer uma batata recheada, eu comecei a sentir uma tontura, falta de ar e a sensação de que meu estômago estava no coração, que, aliás, batia acelerado. Fora a falta de amigos do dia seguinte a uma noite de bebedeira (explico: "falta de amigos" é o conjunto de sensações que culmina na famosa "cara de poucos amigos"). Eu fiquei com medo que isso proporcionasse uma péssima viagem de avião e comuniquei à minha família que ia me deitar. Minha idéia foi tão mal recebida que superou qualquer expectativa minha em relação ao pessimismo da minha mãe. Ela chegou a mencionar a polícia em seu discurso, que foi tão caloroso que chegou a me pôr em dúvida. "Será que eu posso afinal estar errado? Talvez não seja mesmo tão boa idéia me recompor deitando agora", eu refletia quando cochilei sentado. Mas no meu sonho eu também passava mal, então acabou não adiantando muito dormir.

Acordei logo. Discutíamos o que poderia causar aquele mal-estar todo. Meu pai defendia o poder da ressaca, enquanto minha mãe salientava os males do cheddar. Minha irmã tomava o meu lugar na luta e continuava questionando por que diabos eu não podia me deitar. E eu, eu só queria dormir. Chegaram ao consenso de que eu deveria vomitar para jogar aquela "nhaca" toda fora (meus pais chamam qualquer coisa ruim de "nhaca"), mas eu não conseguia. Enjôo sem vontade de vomitar? Mais um elemento para o quadro de House. Mas meus pais já estavam satisfeitos com sua conclusão e pararam de tentar solucionar o caso. Eu estava indo para banheiro quando tive a idéia. Veio tudo voando para mim: diagnóstico, método de tratamento, relação com House, texto para o blog. Tudo em uma fração de segundo, no exato momento em que eu parei para coçar o joelho.

Eu tenho sofrido de dermografismo, que a minha alergista disse que é uma alergia não-alérgica e eu fingi que entendi. Desde que comecei a tratar, as ocorrências foram se tornando mais raras, mas sempre ando com um anti-histamínico para quando sentir coceiras e dificuldades respiratórias. A coceira era a última peça do quebra-cabeça, e eu pude por um dia me sentir o próprio Gregory House ao desvendar não só a causa mas também a solução para o meu problema que na verdade eram dois: dermografismo e ressaca. Um dos dois tratável, e o outro passageiro e breve. Tomado o remédio, meu ânimo subiu tanto que até a ressaca foi embora e pude fazer a reflexão da semana com meu pai, que, quando voltei do banheiro, estava culpando a colonização espanhola pelos problemas que encontramos na Argentina e no Uruguai durante a viagem.

- Parando para pensar, pai, os colonizadores espanhóis nem devem ser levados tão a sério. Nos livros de história você sempre diferencia eles pela arma: eles são os que têm aquela espingarda aberta da roça. Eram os caipiras da Europa.

- E além disso eles têm aquele chapéu ridículo de três pontas.

- É, parece um penico.

Médico e historiador.

Duas coisas que eu não posso ser.

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No navio eu ficava confuso e até nervoso quando um italiano me dizia "prego, prego" e achava que estava estabelecendo uma comunicação aceitável. Sempre, sempre que eu me deparava com um era isso que eu ouvia. Entrando no restaurante, pedindo informação, passando pelo corredor. Eles diziam "prego" e esperavam uma resposta.

Descobri no último dia que a Itália é o país em que é mais fácil ser educado. Ao que parece, "prego" (ou algo de pronúncia semelhante, não sei), significa "obrigado", "por favor", "de nada", "com licença" e todos os afins. Todos.

O que ainda não deixa tão claro o que o maître queria me dizer quando me chamou no corredor.

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Na verdade eu gostaria, sim, de comentar mais sobre a viagem. Só que o adjetivo da vez é "indescritível". É uma palavra que caracteriza uma situação como algo que é, ao mesmo tempo, digno e impossível de se relatar. São tantas coisas que eu não saberia por onde começar, onde terminar, e como ligar. Dá vontade de falar tudo ao mesmo tempo, com uma palavra só, mas essa palavra obviamente não existe e aí você fica em silêncio. No caso de um texto escrito, parênteses vazios devem bastar para expressar a minha incapacidade de me expressar desta vez. Prego.

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Dia 5

"(...) sintomas psicóticos e raras tentativas de suicídio foram relatados nos pacientes (...)"

O remédio que não me deixava beber também trazia, conforme verificado em trechos como o de cima retirados da enorme bula que o acompanha, outros incômodos ao usuário. Mas psicose, depressão, hemorragia nasal e fotossensitividade não são nada perto do sono. Eu fiquei realmente assustado uma vez quando cochilei jogando um videogame de ação frenética - desabar no sofá enquanto mata uma legião de monstros japoneses não é pra qualquer um. Passei a metade do ano dormindo umas quinze horas por dia porque estava vivendo como um zumbi, e quando a dose do remédio diminuiu no final do ano eu senti toda essa energia acumulada voltar. Agora o tratamento está completo, eu estou livre para viver uma vida normal de novo. Ou quase.

Foi uma semana inteira praticamente sem dormir. Eu percebia que mais um dia havia passado quando o sol entrava pela janela, aí dava um frio na barriga e eu tirava um cochilo para tentar separar as horas. Mas o fato é que ontem eu tive a minha primeira noite normal desde pouco após o natal. O fim de um longo dia que englobou até a virada do ano, o que faz com que hoje pareça o real primeiro dia de 2010. Meu ano está começando no dia 5 e eu não fiz resoluções de ano-novo.

Não foi a primeira vez que virei o ano de maneira singular. Mas foi a melhor delas. Afinal, pode ser cansativo, mas um dia de 168 horas (usei a calculadora do windows, adeus exatas) não é nada mau. Além disso a concorrência é desleal. Pela primeira vez não sai errado um revéillon em que eu inovei um pouco. Na mais recente, fui com a minha família ao nosso sítio nas montanhas. Acontece que o lugar é completamente isolado da civilização e na hora bateu a saudade da cidade e nós ligamos a televisão para ver os fogos do Rio de Janeiro. Eu achei aquilo deprimente e fui para o quarto fazer outra coisa qualquer. No momento da virada, eu estava jogando Golden Sun. O jogo nem é bom.

Houve uma vez que eu dei adeus ao ano que passava em uma igreja, e houve também a vez em que resolvi finalmente pular sete ondas no mar. Na sétima onda eu caí num buraco e fiquei completamente submerso, o que não pode ser um bom sinal. Uma amiga se recusou a abraçar aquele cara ensopado e assim eu obtive a primeira rejeição do ano.

Mas 2010 começa diferente. Foi a primeira vez em dez anos sem ninguém usando aqueles óculos horrorosos com os olhos nos zeros de dois mil e alguma coisa, o que por si só já é um grande avanço. E, com quatro dias a menos, vai ser um ano que eu vou me sentir na obrigação de aproveitar ao máximo. Um feliz 2010 para você, com uma desculpa de seis parágrafos para estar atrasado.

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Eu disse "adeus exatas" ali em cima, mas, parando para pensar, acho que não havia mencionado. 2009 foi um ano de muitas grandes escolhas para mim. Fora três, e sim, eu acho muito. Uma delas foi trocar de curso na universidade. Hoje não sou mais um estudante de ciência da computação, e sim de comunicação social. Um amigo meu me disse "eu sempre soube que você pertencia às humanas" e eu o agredi fisicamente por não ter me falado isso há três anos atrás. Três anos.

Três anos.

Vocês podiam ter me avisado também, hein?

A contramão

- Eu estou sóbrio há seis meses.

Palmas.

Nós estávamos em pé em um círculo e a palavra era minha no momento. Não resisti e fiz uma piada com a triste verdade: venho há seis meses tomando um medicamento que me obriga a escolher entre ingerir álcool e ter um fígado. Você só sente a importância das coisas quando elas são tomadas de você, e eu mal posso esperar para "voltar". Já me prometeram duas noites pela conta, uma grade de cerveja e uma garrafa de vodca importada para a minha volta, e eu quero gastar tudo em um dia só. É, duas noites em um dia só, você leu certo. Hoje, entretanto, eu li uma notícia revoltante.

Cada vez mais órgãos de saúde ao redor do mundo se preocupam com a saúde de um mundo cada vez maior de órgãos, e isso tudo está culminando agora em uma reprovação em massa ao consumo de álcool. Há propostas de aumento do preço para simplesmente desestimular as pessoas a beber, porque aparentemente o "beba com moderação" não basta mais para pessoas adultas pesarem suas escolhas. Li que os russos já estão se revoltando. Os russos, sempre na contramão.

Eu fui meio russo quando minha família descobriu que eu fumava. Vale ressaltar que nunca escondi, apenas não acreditei que valesse ressaltar. Foi com uma caricata incredulidade que minha mãe gritou: "Mas você está indo na contramão!" A lei anti-fumo era tudo o que se falava naqueles dias, e foram meses e meses recebendo broncas de todos os lados. Houve até uma amiga que brigou comigo depois que eu já havia parado de fumar. Eu a lembrava a cada cinco minutos de conversa que já não mais "estragava os pulmões" com um "por que é que você está me esculhambando mesmo?" e ela não sabia dizer ao certo. Eu não era mais o Renato que as pessoas conheciam, porque uma mortalha queimando no canto da boca parecia fazer a maior diferença. E para o mundo, os fumantes eram de repente vistos como a única fonte de poluentes e substâncias cancerígenas para a atmosfera dos passivos. Não fumar em ambientes fechados está corretíssimo, mas deveria bastar para tirar o rótulo de vilão.

Mesmo adotando o meu ponto de vista convenientemente simplista para defender o livre uso do tabaco, não posso deixar de achar um pouco divertido o modo como parei de fumar. Minha mãe passou um bom tempo tentando me convencer a dar um fim ao hábito, mas eu sou difícil de derrubar com argumentos. Ela precisou pensar muito para se lembrar de uma fraqueza minha: o meu respeito aos médicos que me atendem. Não, não é tão simples como "Renato, o doutor fulano com certeza seria contra você fumar". Eu já aprendi há muito tempo a lidar com meus pontos fracos, principalmente aqueles relacionados às minhas próprias regras morais e de conduta. É muito fácil se esquivar dos próprios valores. Nesse caso, bastaria não perguntar ao médico o que ele acha - sem ordens médicas, não há o que seguir. A arma encontrada pela minha mãe, entretanto, ia muito além disso. Era preciso um conhecimento psicológico muito íntimo para prever o resultado de:

- Você tem aquele problema na garganta.

Eu soube naquele momento que havia perdido. Eu tenho um problema na garganta, e cigarro obviamente faz mal a esse órgão. Poderiam relacionar-se os dois problemas, causando uma combinação fatal? A resposta era simples de obter e, apesar de que provavelmente seria negativa, o resultado era claramente desfavorável para mim. O médico saberia do meu hábito e ordenaria que eu lhe pusesse um fim.

Meu tratamento está quase acabando e eu vou me juntar aos russos. E, conhecendo a mim mesmo, acredito que não vá demorar muito até eu distorcer meus valores a ponto de voltar a fumar. Viver mata. O oxigênio que nos dá fôlego é o mesmo que nos envelhece, matando-nos lentamente. À medida que pesquisas vão sendo concluídas, chegamos cada vez mais perto da verdade: tudo faz mal. Escolher como tratar a própria saúde é um direito.

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Pessoas que não fazem sexo vivem em geral treze anos a mais que as outras. Quero só ver quem é que não vai ser russo nessa hora.

Tony Flow me criou

Hoje, na fila do Restaurante Universitário, falávamos de gosto musical quando um colega soltou: "Eu não tenho esse negócio de ídolo."

Eu tenho. E não tive opção. Até 2002, eu dizia que não me ligava muito em música. "Amigo CD" (um amigo secreto que faziam na escola, onde o presente era obrigatoriamente um CD)? Eu pedia sempre aleatoriamente, ou deixava a critério do presentador. De qualquer forma, eu ouviria um dia e nunca mais. Foi quando By The Way mudou minha vida. Um música, pela primeira vez, era algo que não precisava ser diferente. Algo que por si só era completo, totalmente agradável de se contemplar. Além disso, eu me amarrava na dancinha do taxista. Os Red Hot Chili Peppers me ensinaram a ouvir.

Comprei imediatamente o álbum. E não houve canção alguma que não me agradasse. No mesmo ano, saiu o videoclipe de The Zephyr Song, que me ensinou que eu não preciso usar drogas.

Throw Away Your Television não me deixou dúvidas: eu seria um baixista. Logo comprei meu contrabaixo que de longe é preto, de perto é roxo e no sol é marrom, assim como o velho álbum Californication e o novo álbum Greatest Hits, que consolidaram a banda como hors-concours para sempre no meu conceito.

Na época eu já sabia tudo de música pela internet. Mas não ouvi absolutamente nada dos álbuns mais antigos. Aguardei pacientemente até o lançamento de Stadium Arcadium, que superou qualquer expectativa, e ouvi as mesmas músicas por mais alguns anos. Quando a banda decidiu se separar por tempo indeterminado, eu soquei algumas paredes até encontrar os três discos mais antigos em um sebo e sossegar. Conhecer as canções velhas era como acompanhar um novo lançamento, e eu me vi como um raro fã que continuava a reconhecer a banda mesmo em tempos de recesso. Ao longo do tempo eu havia desenvolvido uma técnica: ouvir apenas o que eu tenho em disco.

Semana passada adquiri Blood Sugar Sex Magik, considerado pela maioria o melhor de todos os álbuns dos Peppers. Funciona muito bem a minha tática para permanecer sempre interessadíssimo na banda, sem jamais enjoar. E caramba. Que disco bom. E fica melhor ainda ouvido depois de tantos anos redescobrindo um conjunto aos poucos e fora de ordem cronológica. Tendo uma organização diferente no meu conhecimento, a banda é como se fosse outra. Não são apenas os Red Hot Chili Peppers. É o que são para mim os Red Hot Chili Peppers. Eu não tenho ídolos. Eu tenho mestres. Os Peppers me criaram.

A máquina

Existem vários tipos de orgasmo fora o sexual. São prazeres tão diferentes mas quase igualmente satisfatórios. Um exemplo fácil é o orgasmo gastronômico, que é ainda mais difícil de se obter várias vezes com a mesma comida. Aquele mais delicioso filé ao molho madeira, acompanhado de arroz piamontese, bacon e a melhor cerveja da região; a sobremesa mais cara, logo após um longo rodízio de churrasco, que vale cada centavo; o primeiro capuccino com chocolate, doce como todos deveriam ser. O orgasmo gastronômico se aproxima do sexual em um fator importante: pode denunciar sua sexualidade dependendo do que o causa. Cuidado com o petit gateau. Eu poderia ficar enumerando orgasmos psicológicos aqui, como o saudoso, o bucólico, o artístico ou o secreto, mas vou pular para o importante. O orgasmo cultural.

Voltei recentemente de uma viagem a Salvador e estou com dificuldades para organizar os pensamentos. Não só porque eu estava conhecendo um lugar que às vezes parece outro país, ou porque escutei todas as conversas de gringos que acham que ninguém os entende, ou porque andei de táxi o tempo todo, e táxi é igual a ônibus, só que sem os passageiros e com um motorista que compensa a falta deles. Não foi isso que fez meus neurônios ejacularem. Foi o fato de que eu não tive tempo para anotar nada.

Eu vi todas as casas em que a Ivete Sangalo mora. Volta e meia um taxista dizia "mora nesse prédio aí, a Ivete", e nenhum prédio se repetiu. Aparentemente ela tem uma casa de campo e uma de praia. E outra de praia. E uma de centro, e uma perto da padaria, e outra que é pertinho da farmácia. E, juntando informações de diferentes motoristas, uma que é vizinha de Gal Costa. As reuniões de condomínio devem ser demais.

Eu conheci uma empresa chamada "Criativa" que tinha como slogan "famosa pela criatividade", e logo depois também uma funerária de mesmo nome. Funerária Criativa. Não pergunte.

Notei que em Salvador os baianos não são tão baianos. Nada de "oxente", "meu rei", "painho" ou aquele sotaque geral que é o cão. O que só deixa dois lugares que eu conheço onde os baianos falam de maneira irritante: Teixeira de Freitas (BA) e Vila Velha (ES). Eles devem fazer de propósito.

Além dos pontos turísticos normais, eu conheci o barbeiro do meu pai, a praia do sexo, a única farmácia, as nuvens desenhadas.

E eu vi a máquina.

- Você pode pegar a máquina ali para mim, por favor? - disse a turista gaúcha. E o baiano lhe trouxe a máquina sem pestanejar.

Eu pensava que só aqui no Espírito Santo chamassem câmeras fotográficas de "a máquina". Pensei que só eu tivesse que me irritar com isso. Quando escuto "a máquina", imagino logo um policial matador feito o Riggs de Máquina Mortífera, ou uma metralhadora gigante sei lá por quê. Não uma câmera digital. Ou uma calculadora, ou uma lavadora/secadora de roupas, que são também conhecidas como "a máquina". Quando me pedem a máquina, eu sinceramente não sei o que fazer. É como se uma consciência coletiva soubesse sempre a qual aparelho se referem, uma consciência da qual não faço parte. Até onde eu sei, todo mundo pode estar pedindo uma máquina de datilografia.

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Já faz um tempo que não se fala em mais nada além do Twitter. E eu achando a maior bobagem. Quer dizer, parece ótimo para transmissão de notícias, mas daí a cada usuário da internet ficar informando que vai tomar um banho, comer lasanha ou dormir, com qual pijama, em qual quarto, risadinha no final, já é outra história. Corta aqui, já volto a este ponto.

Dia desses eu estava olhando para todos os rascunhos do meu blog. Várias idéias que eu tive nos últimos três anos, idéias que eu achei que dariam ótimas crônicas, mas acabaram não indo para a frente. Eu adoraria utilizá-las, e poderia até publicá-las como estão, pouco desenvolvidas, mas isso só as destacaria negativamente. Foi aí que me lembrei do passarinho azul.

As minhas idéias diárias que são eliminadas podem não ser lá muito brilhantes, mas creio que sejam melhores que "vou escovar os dentes". Você pode vê-las clicando nas maiúsculas entre parêteses (CACA DIÁRIA NO TWITTER), mas encare a página como uma pequena extensão disto aqui.

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Agora vou escovar os dentes.

Projeto de cinéfilo

Toda vez que vou à locadora, eu reviro a caixa de "à venda". Tem umas pechinchas tremendas lá. Estou com essa mania agora: comprando DVD o tempo todo.

Deve fazer uns dois meses que comprei a caixa da trilogia do Indiana Jones, que é cara, junto com um monte de barganhas (no final das contas, você soma os preços de cada um e divide, aí parece que foi tudo barato, dá uma paz... A próxima é a do Rocky), e comecei a ver um por um, aos poucos. Ao contrário do que alguns pensam, relembrar os grandes filmes do passado é uma experiência incrível. Meu pai diz que é perda de tempo, mas assiste a uns quatro programas diários de mesa redonda de futebol. Deve ser incrível para ele.

Da primeira vez que vi Os Caçadores da Arca Perdida e suas continuações, eu confundia Indiana Jones com Agatha Christie - para mim, Morte no Nilo era o filme mais chato do Indy. Eu não conseguia entender porque haviam colocado aquele francês bigodudo no lugar do arqueólogo de chicote. Estava na cara que aquele sujeito não agüentava cinco minutos de armadilhas egípcias.

Hoje, quase vinte anos depois, eu me pergunto coisas um pouco mais inteligentes ao rever a série. Além de "O que diabos foi aquele segundo filme?", por exemplo, não posso deixar de questionar como cenas como o clássico rosto derretendo, a cabeça explodindo, o cara que arranca corações com as mãos e o hálito de Deus não deixaram sua marca na minha memória. Até há pouco tempo atrás, eu deixava de aproveitar qualquer filme que tivesse cenas "fortes" de nojo-violência, porém agora descobri: quando era pequeno, eu não estava nem aí. Sangue, decapitações, tripas e esmagamentos, nada me abalaria. Mas eu morria de medo de Xuxa Contra Baixo Astral. Vergonha na cara: estou agora vendo todos os filmes que a violência não me deixou ver nos últimos anos.

E dizem que a violência nos filmes e jogos influencia negativamente a formação de caráter das crianças. Renato e Indiana Jones estão aí para provar o contrário. E tragam Tarantino!

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Se for fazer alguma citação deste texto, escolha "Renato e Indiana Jones estão aí para provar o contrário", sem incluir o contexto. Que dupla!

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Um agradecimento especial à Bianca. Feliz dia das crianças.

Um pouco de "q" sem "u"

O ômnibus oje tava lotadaum e eu fiuqei em pé apesar do joei estar doenod pacas. Um assento foi liberaod e eu deichei a mossa se sentar primero. Idioat.

O ônibuses oge tava lotadaon e eu fiqei em pé apesar do jueio estar doendo pacas. Um ascento foi liberado e eu deixei a mouça se sentar primeiroi. Idiota.

O ômnibuses oej taav lotadaõ e eu phi'k em pé apesar do juei estar doenod pacases. Um axcento foi liberaod e eu deixei a mô saci sentare pmirerioi. q

Não, não estou me rendendo a nenhum tiop, digo, tipo de internetês para usar no blog. Mas não posso deixar de admitir o fascínio que a liberdade de escrita na rede exerce sobre mim. O que eu comecei a conhecer no final da década de 90, com "vc", "fds", e o mais engraçado de todos, "tc", entre outros, era uma linguagem ágil para nossos dedos lentos. Eu me recusava a escrever errado, mas, digitando com os dois indicadores, entendia perfeitamente o porquê da moda ter pegado. Começava o internetês e, até então, estávamos eu cá e ele lá.

Não foi até 2005, acho, que tive meu primeiro contato com os derivados do internetês. Coisas absurdas como o miguxês, o oOooOOozês e o tiopês simplesmente não conseguiam me convencer. O que havia começado como uma forma de comunicação mais rápida havia se tornado justamente o oposto. Como uma receita médica, que hoje é feita em garranchos propositais cuidadosamente desenhados, a linguagem na internet estava ficando uma confusão vergonhosa.

O onibuxxx oxe tava lotadaum e eu fikei em peh apexxar du joeliu estar doendu pacaxxx. Um axxxxxentu foi liberado e eu deixxxxei a moxxa xi xxentar primero. Idiotaa. O miguxês, fruto de alguma mente incrivelmente maldoxxxxa, desperta no interlocutor imediata e obrigatoriamente uma de duas reações: um misto de frustração e fúria que cresce lenta, porém continuamente; ou uma vontade incontrolável de fazer biquinho. Ambas terrivelmente incômodas, o que me leva a questionar como diabos isso pode ter se espalhado senão por uma conspiração.

o Onibus hOje tava lotadaOn e eO fiquei em pé apesar dO jOelhO estar dOendO pacas. Um assentO fOi liberadO e eu deixei a mOça se sentar primerO. IdiOta. O oOooOOozês foi a língua para a qual foi mais difícil traduzir a frase do primeiro parágrafo. Preciso dizer mais? Pergunto-me se queriam que imaginássemos uma pronúncia diferenciada. Eu não consigo não imaginar, e não consigo não rir.

O o^niubs hoej taav lotadaõ e eu fiuqei em peh apezar do joehlo estar doenod pacas. Um asenot foi liberaod e eu deichei a mossa se senatr priemrioi. Idioat. O tiopês, à primeira vista, me pareceu o novo internetês. Uma linguagem relativamente compreensível, fruto de erros de uma digitação rápida sem rvisões. Algumas letrinhas trocadas praticamente não alteram a velocidade com a qual interpretamos uma palavra, logo, tomar menos cuidado com o que sai antes de apertar enter é um modo de agilizar ainda mais a comunicação. Mas os erros de ortografia além da ordem das letras pediam maiores explicações. Diferente dos oOooOOos e xxxxxxs, esses erros vinham nos mais variados formatos e pretendiam ter a mesma pronúncia que seus paralelos ortograficamente corretos. O miguxês e o oOooOOozês me divertiam, e só isso já era preocupante. Mas o tiopês era diferente. Ele não so me divertia, ele me fascinava.

Dois s poderiam viram um só, ou um cedilha, ou, dependendo do caso, um c, um sc, um xc. M e n podiam de misturar, e a quantidade de fonemas que poderiam substituir o til era impressionante. No inglês, a liberdade era ainda maior. Um só letra poderia se combinar com tantas outras fazendo sons tão distintos que não havia limites para a criatividade. Foi no ano passado que eu percebi que eu também já estava escrevendo errado de propósito. Meio escondido, meio tímido, ousando um pouco na ordem das últimas letras. Um pouco de q sem u. Um pouco de n com p. Em pouco tempo eu desenvolvia um jeito de escrever que já nem era tiopês. Era o meu jeito. Escrever errado era tão delicioso, tornava tão mais engraçadas conversas do dia-a-dia, que fez este cabeça-dura ter uma das mudanças mais drásticas de opinião na vida. Amo a gramática e continuo furioso com a incapacidade alheia de colocar as coisas no papel como ditam as regras. Mas na informalidade da internet, por que não deixar a linguagem ser arte? Com um toque aqui e ali o texto ganha uma personalidade irresistível.

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prontofalei