A vida é como uma caixa de bombons

Pronto, as férias acabaram. Eu devia ter colocado um aviso, mas a verdade é que eu nem sabia que estava de férias. Estou me referindo ao período durante o qual fiquei sem escrever, mas é como qualquer período de férias: você se acostuma com elas e só percebe o quão boas elas são quando acabam. No meu caso, entretanto, são férias ruins. As boas estão acabando, também, aula depois de amanhã, mas escrever? Como é bom estar de volta!

Tudo começou com um surto de juventude que me levou a questionar meu futuro profissional e, somado a pequenos problemas envolvendo restaurantes self-service, adesivos e computadores, trouxe à minha família a conclusão de que eu precisava de ajuda. A primeira consulta de psicanálise foi bastante desconfortável. A doutora deitou no divã, deixando bem claro que alguma coisa estava muito errada ali e não eram só as perturbadoras esculturas de massinha de modelar espalhadas pela sala, e me pediu que falasse.

- Falar o quê?

- Fale sobre o que quiser, Renato.

- ...

Naquele primeiro dia eu falei sobre as esculturas de massinha de modelar, mas com o passar das consultas fui me sentindo mais confortável e passei a contar histórias do meu dia-a-dia e expressar o que elas me faziam sentir. E eu voltava para casa não só me conhecendo melhor, como também satisfeito porque eu adoro contar histórias. Satisfeito como quando publico um texto. E assim começava mais uma idade das trevas no meu site, sem que eu soubesse. Não que tenha sido um período ruim. A jornada de autodescoberta me levou a conclusões interessantíssimas e algumas sugestões divertidas por parte da psicóloga - como a possibilidade da minha tecnofobia ser um superpoder - faziam cada consulta valer a pena, estando ela de sacanagem ou não. Mas agora, quatro meses depois, as sessões de psicanálise acabaram e o cronista está feliz em estar de volta.

Se eventualmente eu voltar a frequentar o consultório de psicologia, dessa vez eu vou avisar. E ver se tomo coragem para perguntar sobre o divã.

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"Esse tal computador provavelmente merecia o que aconteceu. Mas só porque você pode estragá-lo não quer dizer que tenha esse direito. Lembre-se, com grandes poderes vêm grandes responsabilidades."

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E o que eu andei fazendo nos últimos meses? Fica para um outro dia.

Semana que vem: carros.

O estranho apêndice

Quem vir meu quarto agora ficará confuso. Bolas de tênis completamente envoltas por fitas adesivas coloridas estão espalhadas pelo chão. Pedaços de papelão dividem a cama com um livro, um página de jornal (sim, uma) um caderno, um videogame não-portátil e uma folha chamex em branco que, apesar de encontrar-se entre almofadas e lençóis, não apresenta um amasso ou dobra sequer. À bagunça usual da minha mesa somam-se CDs espalhados, um colírio que eu achei que havia perdido e só achei agora enquanto olhava para a mesa com o objetivo de descrever o que repousava sobre ela, uma lista de compras, uma folha de jornal (não é do mesmo dia, eu verifiquei) e um abridor de cartas entalhado à mão. Como eu odeio a falta de móveis do meu quarto. Tirando o abridor de cartas, eu posso explicar tudo. Mas não vou. O que é digno de explicar é o último novo item da minha mesa. O estranho apêndice.

Ligado ao meu computador, que é um laptop, há esse teclado que eu comprei hoje. O negócio é que eu não conseguia acessar os dados do meu computador porque o teclado não funcionava e sem ele eu não conseguia nem entrar com a senha. Fui à loja com a máquina em mãos e pedi um teclado que se instalasse automaticamente. O vendedor ficou meio desconfortável quando mencionei a minha maldição e o fato de que qualquer eletrônico à minha volta estraga misteriosamente, mas me trouxe esse teclado enorme que funcionou. Levei-o para casa feliz com a oportunidade de finalmente salvar meus arquivos em outro lugar e mandar esta merda à... merda.

"Não sei por que cheguei a ter esperança.", pensei ao constatar, em casa, que o novo teclado não funcionava. Eu estava ficando rápido nisso, e já podia ver um mês depois as televisões das vitrines explodindo quando eu passasse pela rua.

Existem momentos em que uma pessoa chega ao seu limite. Ela abandona a razão e perde o controle e se reserva o direito de ser perdoado depois. Eu usei o meu último pingo de racionalidade para calmamente colocar o novo teclado de lado, em cima dos papéis e colírio e abridor de cartas, e comecei a esmurrar o computador.

"mj,ffxmjfdxjn ,fdfdtrlr;jçr" é o que eu deveria escrever aqui, mas era uma tela de senha então o que apareceu foi "...........................". A porcaria estava funcionando de novo.

Por curiosidade, desliguei o teclado novo. Sim, o teclado embutido do laptop parou de funcionar. E cá estou eu, digitando no meu computador que fica cada vez mais estranho, seu novo e estranho apêndice jogado na pilha de entulhos da mesa.

Uma luz azul forte pra caramba acende lá no canto toda vez que eu aperto caps lock. É, eu não gosto de shift.

E eu ainda não sei qual é a do abridor de cartas.

M de Machão

É incrível como o machão muda com a época. Ou lugar. Eles têm em geral algumas características em comum, mas sempre há aquelas diferenças que marcam seu tempo. Ou espaço. Roma, por exemplo. Todo mundo sabe que no grande império os machões da vez eram o Russel Crowe. Os gladiadores tinham tudo: armas, músculos, testosterona e suor. Mas eles usavam saias.

O machão precisa mudar porque mudam os valores. Cada machão vê algum de seus costumes rejeitado na era subseqüente (Já foi banido o trema? Eu persisto.) e é assim que se faz a variedade. A Moda dos romanos. Os Modos dos vikings. A Moral dos texanos do oeste. Os Mimos dos bad boys. De Macho, sim, todos com M maiúsculo, mas valores que não puderam deixar de cair.

O que me traz à presente situação do Brasil.

Eu não consegui escapar do Big Brother que estava na capa do jornal. Capa do jornal. Fui ler minhas notícias de domingo e lá estava. Eu só leio as notícias às quintas, sextas e domingos, o que faz disso um azar maior ainda.

Segundo constava no jornal, o Big Brother conta este ano com um machão. Um cara com nome de peixe, peixe de moqueca, acho que badejo ou dourado ou alguma coisa assim. Enfim, o tal do macho alfa do programa, segundo a reportagem, é popular apesar de inúmeros fatores nela apontados, como agressividade gratuita, grosseria e homofobia.

Eu confio razoavelmente no jornal, então pergunto: É esse o nosso machão? Se é esse tipo de pessoa que é visto como um padrão de homem para a nossa sociedade, eu já sei qual é a qualidade que a próxima era deve rejeitar. O nosso Machão é uma Merda.

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Espero que seja Badejo. Eu comi uma moqueca de dourado hoje e ela estava ótima.

Feijão tropeiro

Na minha casa não há comida. E - já cansei de esconder - eu tenho medo de restaurantes self-service. Riam se quiserem. O que importa é que eu tenho pedido uma marmita feita por telefone com bastante frequência. Eu peço para trocarem a maionese por batata, mas o feijão é sempre tropeiro.

A preferência por feijão tropeiro é bastante recente no meu cardápio, e eu atribuo isso à enumeração quase aleatória de ingredientes. Alguns dos pontos pretos que não são feijões eu nunca soube identificar, e quando criança a gente aprende a não comer se não souber o que é. Como é difícil desaprender. Procurar informação em alguma receita já não é difícil, mas pra quê? Estragar o mistério?

O torresmo está ali. Qualquer prato que tenha torresmo é estranho, porque francamente eu não consigo pensar em nenhum outro prato que tenha torresmo. É uma delícia, mas não combina com nada. Talvez um prato que se chame "torresmo" e é composto apenas de torresmo conte. E o feijão tropeiro. Mas o ingrediente da mistura que eu considero menos ortodoxo é a linguiça.

Historicamente, o feijão tropeiro começou como um prato completo, eu sei. Mas hoje se alguém o come puro é porque a carne do churrasco está demorando a assar. O que já foi todo um prato é agora um acompanhamento. E quando eu levo à boca um garfo que já tem o feijão, o arroz e a carne, não consigo não pensar que aquele pedaço de linguiça está sobrando. Principalmente porque a do churrasco é muito melhor.

E este foi o mais longe que eu já cheguei para criticar um filme negativamente. Os ingressos para o cinema estão ficando caríssimos, fazer o quê. Ilha do Medo, o novo filme de Martin Scorcese, não é de todo ruim, mas o fato de que a mesma fórmula já foi feita tantas vezes torna toda a trama previsível já antes da projeção marcar meia hora. E a primeira cena tinha sido tão animadora. "Aí está a ilha sinistra. Só há uma entrada, e uma saída. Eu vou deixá-los agora e voltar para o continente e não haverá mais nenhum navio no porto até amanhã. Olha, lá vem uma tempoestade."

Ilha do Medo é a linguiça do feijão tropeiro. E, caramba, a marmita tem até picanha.

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Sim, o meu computador finalmente estragou. Consegui sequestrar hoje o do meu pai, e espero poder fazê-lo mais vezes durante a semana. Na verdade, o que eu espero mesmo é que o meu volte a funcionar. Não, na verdade, o que eu espero mesmo é ganhar um novo em um sorteio. Eu não me increvo em sorteios, então o que eu espero mesmo é que alguém tenha colocado o meu nome em um. Dedos cruzados.

O clube do leite

Eu mencionei o clube uma vez. O clube. É assim que o chamamos porque ele é meio difícil de definir. Com uma palavra legal, pelo menos.

- Então, vamos estabelecer algumas regras. Primeiro, eu acho que qualquer membro novo tem que ser aceito por todo o clube para entrar. Todos de acordo?

- Espera aí. - surpreendeu-me Pedro - Como assim "tem"?

- É um verbo que exprime necessidade.

- Mas não é mandatório que essa regra seja estabelecida assim.
- o Pedro consegue ser chato quando quer.

- Não, por isso eu disse que acho. Acho que membros novos devem ser totalmente aceitos para fazer parte das nossas reuniões.

- Quando você fala assim, parece que é uma obrigação. Não é. Não é necessário estabelecer regras assim.

- Vou mudar então. Hum... Acredito que seja adequado entrarmos em acordo quanto a algumas questões que concernem o clube. O ingresso de novos membros, por exemplo, pode acarretar em uma série de problemas, dada a natureza das nossas reuniões, e deve portanto ser analisado com cuidado. Sugiro que estabeleçamos a aceitação unânime como pré-requisito. Melhor agora?

O clube surgiu num dia em que eu me deparei com um de meus recados noturnos. O adesivo na porta dizia "clube da roleta" e eu me lembrei imediatamente. A idéia seria colocar em alguma forma de sorteio várias opções de atividades inusitadas, de modo a evitar dias de tédio. Você gira a roleta e aparece algo divertido que você nunca fez e pronto, programa garantido. Como tudo fica mais divertido em grupo, resolvi levar a idéia a alguns amigos.

Nós acabamos decidindo por um método diferente de seleção. Cada um ia apresentando sua idéia de programa até que uma fosse aceita por todos. Só não valia algo que já tivéssemos feito.

A teoria mais aceita é que não estávamos pensando direito ao respondermos todos que sim quando Filipe disse: "A gente vai a uma lanchonete e pede cinco leites."

- Cinco leites, por favor. - disse Filipe com uma cara de sério que só ele sabe fazer.

- Como?

- Cinco copos de leite.

- Nós não temos leite.

- Como assim? - perguntei, levantando o cardápio - Como é que vocês fazem o milk-shake?

- Espera um minuto que eu vou perguntar para o gerente - respondeu o garçom.

- Olha, eu gostei de perguntar sobre o milk-shake, mas o fato é que estou me sentindo meio desconfortável. Isso é ridículo.

- Você tem que enxergar as coisas de outra forma. - disse Pedro - Olha só, no mínimo nós estamos tornando o dia do pessoal da lanchonete menos tedioso. Imagina só o que eles devem estar falando da gente agora. É um evento diferente.

- Eles podem estar só dizendo "Um bando de engraçadinhos fazendo"... hum ... "graça".

- Não enquanto Filipe estiver aqui.

O garçom voltou, dizendo:

- Tem leite, sim, mas não está gelado.

- Não tem importãncia.

- OK. Cinco copos de leite, então. Mais alguma coisa?

- Não, só o leite. Obrigado.

- E um saco de vômito, né? - disse Gabriel Gabriel quando o garçom saiu. - Eu não vou tomar esse negócio.

- Então por que concordou com a idéia?

- É só você colocar açúcar. - sugeriu Eduardo Gabriel - Olha aqui, tem vários saquinhos na mesa.

- Açúcar no leite? - perguntei. Nunca havia ouvido falar - Você tá brincando, né?

- Não. É bom.

- Ele tá brincando, né?

- Não, é bom.

- Eu não vou tomar. - insistiu Gabriel, e o garçom apareceu com os copos.

- Vamos virar? - sugeri. Eu nunca havia tomado leite puro quente, mas sabia que não devia ser pior do que cachaça com sal. - Um, dois, três, e... Caraca, isso é pior que cachaça com sal!

- Me dá isso aqui. - disse Eduardo, pegando o copo do irmão. O moleque tomou os dois copos e nós ainda estávamos juntando coragem para o segundo gole. - E aí, galera, vamos pedir uns x-egg agora?

- Argh!

Na falta do que fazer, fique sem fazer nada.

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Estranhamente, essa primeira reunião do clube não foi a última.

Sobre croissants, vinho e cu

Neste domingo eu fui com o Pedro a umas palestras no museu ferroviário com a condição de que ele cantasse a música de Cabaret Mineiro no palco na nossa aula de teatro do dia seguinte. O evento teria figurões como José Celso Martinez Corrêa e José Miguel Wisnik, mas a verdade é que eu fui pela comida.

Eu como diversas vezes ao dia, o que me obriga a fazer alguns lanches caros por falta de opção dependendo de onde eu estiver quando bater a fome. Talvez seja por isso que comida de graça pareça tão mais gostosa na minha boca. Eu não tenho vergonha de dizer, porque eu não como só porque é grátis. Eu como porque tem um gostinho especial. E porque é grátis, também.

- Eu vi, tá? Você molhando o croissant na cobertura do bolo. - disse Pedro. Era o intervalo entre uma palestra e outra.

- Foi sem querer! Mas ficou delicioso. Ei, sabia que a qualidade de um croissant é determinada pela quantidade de camadas que o padeiro consegue colocar sem grudar?

- Interessante. Esse daí tem quantas?

- Não dá para dizer, eu já mordi. Parecem umas oito, sei lá. Peraí que eu vou pegar outro. - terminei de comer o meu croissant e fui pegar um novo. Pela ciência.

- Você molhou no bolo de novo.

- É, mas o bolo agora é seu. Toma. E então, o que você achou da palestra? Ou melhor, tava mais para um debate, né?

- É verdade. Eu achei ótimo, adorei a parte da germanofilia.

- Sim! Foi demais também a definição de natureza que a mulher deu: "sol, luz, dinossauros".

- Hum, este muffin está uma delícia.

A segunda palestra era com o José Celso Martinez e o José Miguel Wisnik, e as expectativas estavam lá em cima. Nós ficamos surpresos quendo um rapaz foi até a mesa deles e serviu vinho. Para os dois e para ele mesmo.

- Eles vieram aqui para se divertir, olha só. Isso vai ser muito bom.

- E qual é a daquele jovem? Quem é ele? Ele tá tomando vinho junto dos caras!

Os Josés começaram cantando uma música de autoria do Wisnik e andaram até o meio do público, ordenando que formássemos com as cadeiras um círculo em volta deles. O vinho, a música, o círculo. A palestra começava cheia de surpresas. Mas eu não fazia idéia.

José Celso falava de uma peça de teatro ousada que fez uma vez quando chamou o rapaz para o centro do círculo. Aquele, o do vinho.

- Você vai fazer?

- Sim, sim. - respondeu o rapaz, e pôs de lado a taça de vinho e plantou bananeira.

O que já seria mais uma surpresa mesmo se o velho não completasse com "Agora alguém venha tirar as calças dele".

- Agora alguém venha tirar as calças dele.

- Ai, eu vou lá! Eu vou lá! - ficou gritando uma moça que estava sentada logo atrás de nós. Mas ela não foi e por fim um artista que estava na primeira fileira aceitou fazê-lo.

- Ei, a calcinha também! - falou José Celso Martinez, e não, ele não estava de calcinha.

O homem tirou a "calcinha" e nós tínhamos agora um rapaz nu de ponta-cabeça na frente de umas mil pessoas. E em todos os telões.

- Câmera! Por que você está aí no canto? Venha cá dar um close! O que foi? Você é evangélico, é? Evangélico não tem cu? - brincou o velho, e continuou a importunar o câmera até que ele chegasse perto.

O que se seguiu foi um festival de situações potencialmente ofensivas envolvendo vinhos, gargantas e dedos que eu prefiro deixar para a imaginação do leitor. Eu não me ofendi nem um pouco, e na verdade até me ofendi com a atitude provinciana de quem se ofendeu, mas devo dizer fui surpreendido a cada segundo. Sempre que eu achava que o velho fosse parar, ele fazia uma coisa nova. E tudo regado a uma música cantada pelo Wisnik.

- Que horror! Como alguém se sujeita a um papel ridículo desse? - reclamou a moça atrás de nós. É, a mesma que queria tirar as calças do rapaz.

- Ei, Pedro, quantas pessoas você acha que estão ofendidas aqui, agora? Em porcentagem.

- Ah, não é pra isso não. Deve haver uma ou duas.

- Você superestima Vitória, meu caro.

E nós ficamos discutindo a reação dos espectadores até que tudo acabou e o rapaz colocou suas roupas e voltou a tomar seu vinho.

- Olha! Ele ficou com as bochecas vermelhas!

- Não o culpo.

Eu saí do museu com um sorriso no rosto. Eu adoro ser surpreendido. E eu adoro croissants.

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Até eu superestimei Vitória. O caso teve uma repercussão enorme e aparentemente os únicos que gostaram fomos eu, Pedro e o nosso professor de teatro. Que não estava lá.

- José Celso, você tem que vir a Vitória mais vezes! - disse Pedro enquanto pegava um autógrafo no final da palestra.

- Só depende de vocês. Evoé!

É, infelizmente ele não vem.

O genial esquema de anotações

Eu detesto dormir, mas devo admitir que o sono é um momento mágico. Não sei, entretanto, se é com todos. Comigo sonambulismo, sonhos lúcidos e paralisia do sono juntam-se para garantir que cada noite seja uma surpresa. Muitas vezes eu acordo antes da hora cheio de idéias que vou esquecer no dia seguinte. E eu não esqueço apenas as idéias, mas tudo o que acontece enquanto estou no estado zumbificado de entressonos. Eu dependo, portanto, das anotações que faço no meio da noite e colo pelo quarto para ver de manhã.

Hoje eu encontrei sobre a minha mesa um recado enigmático. Com a minha letra.

"Frio
Camisa
Calor
Miojo
Água"

Eu sei que, quando escrevo tópicos assim, trata-se de uma idéia de texto. Costumo colocar os itens em uma ordem lógica para não me esquecer de como uma coisa leva à outra, e dessa forma reconstruir o pensamento no dia seguinte.

"OK", pensei, "Eu acordo com frio de noite e me levanto para colocar uma camisa. Tudo bem até agora. Mas e o calor? Talvez eu tenha refletido sobre como senti calor o dia todo e agora passava frio, e em como isso era irônico, transformando este no ponto central do raciocínio. Não, isso não faria sentido, é uma idéia idiota demais para ser anotada. Além disso, não há ligação alguma com o miojo."

Eu tinha um quebra-cabeças para resolver. Eu adoro quebra-cabeçases. Que é o plurais de quebra-cabeças que eu inventei. Eu inventei "plurais" também.

"Já sei, vou partir do miojo, que ainda não encaixou. Miojo é quente - e, aliás, demora pacas para esfriar e é impossível tomá-lo escaldante daquela forma, mas sem a água o tempero fica seco e grudento, o que faz com que eu me pergunte como diabos um alimento tão incômodo se tornou um elemento tão importante na minha dieta -. Miojo, calor e água, juntos, eu sou genial. Agora é só juntar as outras partes:

'Acordo com frio, boto uma camisa. A camisa me esquenta, como faz a água com o miojo.'

..."

Eu não queria continuar nessa linha de raciocínio. Ela não fazia sentido. Mas eu não podia abandonar meus escritos. O meu eu da noite passada tentava me dizer alguma coisa, e eu ia descobrir o que era a todo custo.

Desliguei o ventilador. Calor. A pista central do recado, disso eu tinha certeza.

"Calor, calor..."

Incrível como dois segundos sem ventilador tornavam a vida insuportável. A temperatura por aqui tem atingido níveis tão absurdos que eu estou decidido a comprar um ar condicionado para o meu quarto. Ar condicionado faz o meu nariz sangrar, mas eu já não me importo mais. Definitivamente, calor era o ponto central. E de repente a resposta me atingiu. O calor insuportável em todos os horários menos de manhã cedo, quando acordo seminu, sem proteção alguma contra o frio matinal. Problema que poderia ser contornado se eu usasse roupas para dormir. Mas eu não podia vestir a camisa. Eu estava morrendo de calor, e o miojo quente que eu acabara de tomar não ajudava nem um pouco. Por que eu insistia em tomar o miojo quente? Porque ele não esfria enquanto não estiver completamente seco.

E foi aí que eu percebi.

Que perda de tempo.