Acabo de voltar de um cruzeiro italiano que passou por alguns países onde nossos "reales" valem ouro e todos os carros são batidos, mas não passei o dia da volta pensando em escrever sobre isso aqui. Porque por mais que tenha sido uma experiência incrível (afinal, eu nunca havia saído do país, ou melhor, do sudeste + Bahia), sua capacidade de gerar uma história curiosa foi ofuscada pelo próprio dia da volta. O dia da ressaca.
Eu peguei uma gripe argentina no meio da viagem e fiquei um dia inteiro de cama, mais um dia de recuperação bebendo só água, o que atrasou um pouco o meu plano de provar todos os drinques internacionais dos diferentes bares do navio. Acabou ficando tudo para o último dia, e todo mundo sabe que isso não podia acabar bem.
Não me lembrando muito bem do que ocorrera na noite, eu olhava para o buffet do navio e não conseguia encontrar nada que não me desse enjôo só de olhar. Comi duas fatias de melancia e aceitei que o dia seria péssimo, mas valia a pena pela ótima semana em águas internacionais. O que eu não sabia, entretanto, era que eu estava vivendo ali a introdução de um episódio de House. Para quem não conhece, House é um seriado que mistura medicina e mistério. O episódio começa com algum sintoma normal, o paciente apresenta complicações confusas, e o time do diagnóstico fica quebrando a cabeça para no final descobrir que era alguma coisa completamente fora do comum, ou a mistura de várias doenças, ou lúpus.
O título de pior ressaca da minha vida só foi merecido no aeroporto. Depois de comer uma batata recheada, eu comecei a sentir uma tontura, falta de ar e a sensação de que meu estômago estava no coração, que, aliás, batia acelerado. Fora a falta de amigos do dia seguinte a uma noite de bebedeira (explico: "falta de amigos" é o conjunto de sensações que culmina na famosa "cara de poucos amigos"). Eu fiquei com medo que isso proporcionasse uma péssima viagem de avião e comuniquei à minha família que ia me deitar. Minha idéia foi tão mal recebida que superou qualquer expectativa minha em relação ao pessimismo da minha mãe. Ela chegou a mencionar a polícia em seu discurso, que foi tão caloroso que chegou a me pôr em dúvida. "Será que eu posso afinal estar errado? Talvez não seja mesmo tão boa idéia me recompor deitando agora", eu refletia quando cochilei sentado. Mas no meu sonho eu também passava mal, então acabou não adiantando muito dormir.
Acordei logo. Discutíamos o que poderia causar aquele mal-estar todo. Meu pai defendia o poder da ressaca, enquanto minha mãe salientava os males do cheddar. Minha irmã tomava o meu lugar na luta e continuava questionando por que diabos eu não podia me deitar. E eu, eu só queria dormir. Chegaram ao consenso de que eu deveria vomitar para jogar aquela "nhaca" toda fora (meus pais chamam qualquer coisa ruim de "nhaca"), mas eu não conseguia. Enjôo sem vontade de vomitar? Mais um elemento para o quadro de House. Mas meus pais já estavam satisfeitos com sua conclusão e pararam de tentar solucionar o caso. Eu estava indo para banheiro quando tive a idéia. Veio tudo voando para mim: diagnóstico, método de tratamento, relação com House, texto para o blog. Tudo em uma fração de segundo, no exato momento em que eu parei para coçar o joelho.
Eu tenho sofrido de dermografismo, que a minha alergista disse que é uma alergia não-alérgica e eu fingi que entendi. Desde que comecei a tratar, as ocorrências foram se tornando mais raras, mas sempre ando com um anti-histamínico para quando sentir coceiras e dificuldades respiratórias. A coceira era a última peça do quebra-cabeça, e eu pude por um dia me sentir o próprio Gregory House ao desvendar não só a causa mas também a solução para o meu problema que na verdade eram dois: dermografismo e ressaca. Um dos dois tratável, e o outro passageiro e breve. Tomado o remédio, meu ânimo subiu tanto que até a ressaca foi embora e pude fazer a reflexão da semana com meu pai, que, quando voltei do banheiro, estava culpando a colonização espanhola pelos problemas que encontramos na Argentina e no Uruguai durante a viagem.
- Parando para pensar, pai, os colonizadores espanhóis nem devem ser levados tão a sério. Nos livros de história você sempre diferencia eles pela arma: eles são os que têm aquela espingarda aberta da roça. Eram os caipiras da Europa.
- E além disso eles têm aquele chapéu ridículo de três pontas.
- É, parece um penico.
Médico e historiador.
Duas coisas que eu não posso ser.
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No navio eu ficava confuso e até nervoso quando um italiano me dizia "prego, prego" e achava que estava estabelecendo uma comunicação aceitável. Sempre, sempre que eu me deparava com um era isso que eu ouvia. Entrando no restaurante, pedindo informação, passando pelo corredor. Eles diziam "prego" e esperavam uma resposta.
Descobri no último dia que a Itália é o país em que é mais fácil ser educado. Ao que parece, "prego" (ou algo de pronúncia semelhante, não sei), significa "obrigado", "por favor", "de nada", "com licença" e todos os afins. Todos.
O que ainda não deixa tão claro o que o maître queria me dizer quando me chamou no corredor.
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Na verdade eu gostaria, sim, de comentar mais sobre a viagem. Só que o adjetivo da vez é "indescritível". É uma palavra que caracteriza uma situação como algo que é, ao mesmo tempo, digno e impossível de se relatar. São tantas coisas que eu não saberia por onde começar, onde terminar, e como ligar. Dá vontade de falar tudo ao mesmo tempo, com uma palavra só, mas essa palavra obviamente não existe e aí você fica em silêncio. No caso de um texto escrito, parênteses vazios devem bastar para expressar a minha incapacidade de me expressar desta vez. Prego.
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